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Enquanto pesquisador de cinema, o que significa Hollywood pra você? (Destacando aquilo que se mostra mais relevante para a nossa reflexão e para a fundamentação de um olhar crítico sobre os filmes.)

  • Marcelo R. S. Ribeiro

    É uma pergunta abrangente, cuja resposta só poderei esboçar, Rodrigo. Obrigado por me dar a oportunidade de compartilhar um pouco do que penso sobre Hollywood.

    Acredito que o paradigma hollywoodiano de cinema narrativo constitui uma referência (positiva ou negativa) incontornável para quem lida com cinema no mundo contemporâneo. Escrevo "quem lida com cinema" pensando tanto em quem produz - nos tantos "realizadores" (palavra que me parece preciso interrogar devido a seus pressupostos, sobretudo no que diz respeito à teoria e à crítica, que se tornam atividades não-realizadoras...) que buscam se expressar por meio do cinema - quanto em quem pensa cinema - nos críticos (que em contexto jornalístico têm pensado mal o cinema e se contentado a falar de filmes de forma mais ou menos isolada, na maior parte dos casos) e nos pesquisadores (quase sempre vinculados às universidades). Escrevo "no mundo contemporâneo" para deliberadamente generalizar uma situação que percebo nitidamente no Brasil, consciente de todos os riscos que uma generalização envolve. Como referência, Hollywood pode ser o exemplo a ser seguido ou a problemática a ser questionada (ou deixada de lado - mas deixada de lado Hollywood permanece ali, como uma assombração, daí seu caráter incontornável, a meu ver).

    Daí resulta, a meu ver, a necessidade de uma prática questionadora e de um pensamento crítico sobre Hollywood. Só que tanto uma como o outro só poderão se desenvolver na intimidade, não no distanciamento. A figura paradoxal de uma proximidade mais crítica do que o distanciamento é o que eu sugeriria que se torna mais crucial diante de Hollywood. Uma intimidade desconstrutiva, eu diria.

    Lidar com Hollywood hoje passa por reconhecer e explorar as potencialidades que os meios digitais encerram. Podemos interromper, modificar e refazer sequências, ritmos de montagem, convenções de gênero etc. quando assistimos a filmes em DVD e similares. Podemos reconstruir de forma ainda mais radical o fluxo das imagens por meio de recursos de edição básicos, muito usados hoje por quem posta vídeos de paródia, trailers de filmes que não existem e "brincadeiras" do tipo no YouTube. Penso que essas e outras potencialidades que o digital encerra se encontram em geral domesticadas como diversão, como passa-tempo inócuo ou como recursos pouco utilizados (poucos espectadores irão de fato assistir uma sequência de ação, com montagem rápida, colocando tudo em câmera lenta e parando de plano em plano no DVD). Mas acontece que a potencialidade para um deslocamento, mesmo que sutil, do que faz Hollywood, está dada de forma muito mais viável do que antes. Entre o que se ganha e o que se perde na convergência digital, penso que uma das tarefas mais cruciais de quem lida com o cinema hoje é a exploração das potencialidades do digital. E essa exploração só se torna possível de fato com intimidade, como disse. Portanto, é preciso fazer da intimidade que somos forçados a desenvolver com o paradigma hollywoodiano uma intimidade desconstrutiva.

    Por outro lado, penso que precisamos abrir espaço para a alteridade, em suas múltiplas figuras. O campo cinematográfico mundial é um campo de batalha por visibilidade, no contexto de uma economia audiovisual marcada pela lei econômica capitalista. Tornar visíveis "outros" cinemas (diferentes de Hollywood) passa também por lutas muito concretas em torno de distribuição e exibição, mercado etc. Num outro sentido, a abertura para a alteridade coloca questões de legibilidade: é preciso construir formas de leitura fílmica, por assim dizer, que correspondam à singularidade dos filmes, dos cinemas. Aqui, torna-se insuficiente demarcar diferenças em relação a Hollywood ou partir do paradigma hollywoodiano como quadro de leitura. É o risco de todo exercício comparativo - transformar um dos termos da comparação em moldura da mesma - que precisamos evitar. Aqui, as dificuldades são inúmeras, pois não há uma metalinguagem neutra, uma moldura além de todas as molduras. É no jogo entre as molduras, entre os cinemas, que poderá talvez se insinuar e se deixar entreouvir a cada vez a singularidade das mais radicalmente diferentes estéticas cinematográficas.

  • Marcelo R. S. Ribeiro

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