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    1. Marcelo R. S. Ribeiro
    2. Marcelo R. S. Ribeiro

      2666, de Roberto Bolaño. Por incrível que pareça, já faz quase seis meses que terminei de ler.

      Devido às mais diversas razões, não conclui nenhum outro livro desde então, embora tenha começado "A misteriosa chama da rainha Loana", de Umberto Eco (que não me animou tanto quanto eu esperava), além de ter lido vários contos esparsos...

    3. Marcelo R. S. Ribeiro

      Uma pergunta cinematográfica do Formspring!

      Difícil escolher um único filme... Se a pergunta for feita mais de uma vez, em momentos diferentes, a resposta não será a mesma, mas hoje vou de "Sem sol" (Sans soleil) de Chris Marker (1983).

    4. Marcelo R. S. Ribeiro

      Gosto bastante, mas taí um filme que preciso rever. Me parece uma obra rica em questões, desde sua construção dramática - em que Brecht encontra Griffith, por assim dizer - até os temas que articula - gênero, violência, identidade nacional etc. Lembro que havia um comentário de que Dogville, Manderlay (outro de que gosto, outro que preciso rever) e um terceiro filme comporiam uma trilogia sobre os EUA. Será que o Lars von Trier abandonou o projeto?

    5. Marcelo R. S. Ribeiro

      Onde está essa frase? Gostaria de conhecer melhor o seu contexto, mas de qualquer forma me parece que, por suas metáforas e por seus pressupostos, é impossível concordar com o que Marx disse aí. Não vou me aventurar a dizer qualquer coisa sobre a visão de Marx sobre a religião cristã ou, mais ainda, sobre a religião em geral. Haveria muito a estudar aí para chegarmos a noções menos imprecisas do pensamento dele e, principalmente, para nos afastarmos das simplificações que rondam esse assunto (relações entre Marx, seu pensamento e a religião).

      As metáforas problemáticas: "sol ilusório", em primeiro lugar, por seu platonismo cavernoso (pun intended); o homem que "orbita ao redor de si mesmo" ou não, em segundo lugar, por seu essencialismo solipsista (se me permite a condensação de um problema imenso em dois termos difíceis).

      As pressuposições problemáticas: "a religião" como um fenômeno unificado e homogêneo que tem sempre os mesmos efeitos; "o homem" como uma entidade identificável sem maiores interrogações.

      É claro que isso tudo é problemático, principalmente, quando lemos a frase assim, fora de seu contexto. Por isso, como indiquei no início, é crucial relê-la onde se encontra na obra e no texto de Marx (e minha memória não me permitiu identificar a frase assim tão profundamente). No entanto, é preciso reconhecer que, na descontextualização, talvez esteja se fazendo legível uma tendência presente naquela obra e naquele texto.

    6. Marcelo R. S. Ribeiro

      Eu diria que o cristianismo colaborou e atrapalhou com o "processo civilizatório do ocidente", ao mesmo tempo. Mas o que isso significa?

      Em primeiro lugar, o cristianismo não constitui uma totalidade homogênea, cujos efeitos formariam um conjunto coeso. Em vez disso, trata-se de uma totalidade disjunta, atravessada por contradições internas que é preciso destacar, em vez de subsumir dentro de uma ilusão de unidade. O cristianismo não é, portanto, um conceito abstrato e atemporal, mas uma palavra-chave para a descrição de fenômenos socio-históricos diversos.

      Em segundo lugar, a noção de "processo civilizatório do ocidente" não deve ser entendida como a descrição de um estado de coisas já dado, como a constatação de uma realidade empírica. Em vez disso, trata-se de um signo que produz performativamente seu referente - a história - e, nesse sentido, constitui um importante campo de batalha para as interpretações da história e da vida na Terra.

      Usualmente, é uma noção associada a uma versão da história da humanidade em que as grandes invenções e avanços técnicos ou "espirituais" aparecem como se fossem resultado de algo que a palavra "ocidente" tenta descrever. Assim, para dar apenas um exemplo, a democracia nasce na Grécia, cuja civilização o "ocidente" reivindica como ponto de viragem crucial em sua própria história. Nesse caráter usualmente positivo de que se investe a noção de "processo civilizatório do ocidente", é importante notar o papel desempenhado pela ideia de civilização, pressuposta como um processo de engrandecimento contínuo, em oposição a barbárie e à selvageria. Essa visão do "processo civilizatório do ocidente" como algo positivo é típica do que costumamos chamar de modernidade e tem em Max Weber, por exemplo, um de seus principais intérpretes, sobretudo quando este descreve a modernidade como algo que se passou "exclusivamente" no "ocidente".

      É preciso ir contra essa forma de interpretação, para produzir uma outra (compreensão da) história. No contexto dessa busca e diante da pergunta sobre o cristianismo, penso que o trabalho de um Walter Mignolo se destaca, em meio a uma série de propostas que têm se agrupado sob o rótulo "pós-colonial" (que não está, é claro, isento de problemas). Participando da busca por "categorias geo-históricas não-imperiais" (o termo é de Fernando Coronil em seu artigo "Beyond Occidentalism"), Mignolo escreveu livros como "The Dark Side of Renaissance" e "Histórias locais / Projetos globais", nos quais busca estabelecer alguns dos marcos dessa outra história que é preciso reconhecer/produzir.

      Do ponto de vista do debate pós-colonial em geral e de Mignolo em particular, é preciso compreender o "processo civilizatório do ocidente" sempre em relação com a alteridade (colonial) que o atravessa internamente. Nesse sentido, por exemplo, o colonialismo deve ser compreendido no seu papel de "exterior constitutivo" (expressão de Stuart Hall) da modernidade. A modernidade não deve assim ser compreendida da perspectiva eurocêntrica de um Weber, mas de uma perspectiva mundial (como propõe Enrique Dussel).

      E qual é o papel do cristianismo dentro desse processo mundial profundamente ambivalente que será preciso chamar de modernidade colonial? Antes de tudo, não é um único papel, como disse antes: está atravessado por contradições e tensões. Além disso, da perspectiva pós-colonial, ou descolonial (uma palavra que tende a me agradar mais, embora seja menos utilizada), o cristianismo é igualmente ambivalente e precisa ser analisado em termos de formas hegemônicas e formas não-hegemônicas. Em suas tendências hegemônicas, o cristianismo está associado ao imperialismo, delirando justificativas para o colonialismo sob a forma da "missão civilizadora", cujo motor é a ganância e cujo instrumento é a violência, ou mais recentemente sob a forma de "missões humanitárias", que parecem ter se convertido hoje num instrumento do poder mais sórdido. No entanto, em suas tendências anti-hegemônicas, como a Teologia da Libertação, o cristianismo está associado a questionamentos profundos do que Mignolo chama de "sistema mundial colonial/moderno" e das desigualdades e problemas que enseja.

    7. Marcelo R. S. Ribeiro

      Considerar o "cinema pós-moderno" como uma noção equívoca me parece ser uma forma de afirmar a historicidade e, portanto, a transitoriedade da arte (cinematográfica). Se entendo bem sua pergunta, o que está em jogo é justamente o reconhecimento do cinema como um fenômeno histórico que, como arte, se revela transitório na medida em que se inscreve e se deixa inscrever em contextos específicos. Ou estou enganado?

      Em todo caso, para ficar com a questão do cinema pós-moderno, reitero: não precisamos categorizar ou classificar o cinema contemporâneo ou parte dele como pós-moderno para reconhecer seu pertencimento histórico e sua transitoriedade enquanto forma artística.

      Obrigado também pela pergunta, Eloi. Se eu por acaso tiver entendido mal, me diga. O papo está ficando bom sobre esse negócio esquisito de cinema pós-moderno, né? Vamos continuando. Vou disseminar a pergunta, ou algo parecido. Vejamos...

    8. Marcelo R. S. Ribeiro

      Cinema pós-moderno me parece uma noção equívoca. Veja bem: equívoca, não necessariamente equivocada. Estou tentando responder essa sua pergunta há um bom tempo, mas sempre desisto no meio do caminho e deixo pra depois. Vou tentar agora reunir algo do que esbocei antes (sim, eu guardei meus esboços!) e algumas novas considerações pra justificar minha afirmação inicial, que resume basicamente minha posição.

      Os conceitos de pós-modernidade e pós-modernismo me parecem limitados, no máximo, a usos fundamentalmente estratégicos. É nesse sentido que as obras de Linda Hutcheon e Fredric Jameson, por exemplo, são interessantes para mim: colocam sob o signo do pós-moderno um feixe de questões que dizem respeito aos nossos tempos e às peculiaridades que o diferenciam da modernidade e das épocas anteriores. No entanto, o termo em si me desagrada bastante. Assim como "pós-colonial", embora de forma diferente, "pós-moderno" sugere a ultrapassagem de um limiar e, ao que me parece, implica uma noção um tanto linear de história, que beira perigosamente um certo evolucionismo. É por isso que penso que, estrategicamente (como disse acima), pode ser interessante usar esses conceitos, mas é necessário, digamos, escrever sob rasura, como talvez dissesse Derrida.

      Se o interesse do conceito de cinema pós-moderno é estratégico, é porque a noção, equívoca, demanda um contexto de operações teórico-conceituais que lhe dê sentido e esse sentido está necessariamente ligado a uma interrogação sociopolítica. Nesse sentido, os critérios que eu apontaria para pensarmos num cinema pós-moderno não são critérios especificamente estéticos (aliás, o pós-moderno em geral está relacionado, a meu ver, a uma radicalização intensa da interrogação modera das especificidades nas artes). Em todo caso, vou tentar sugerir algumas ideias:

      1) O cinema pós-moderno é um cinema obcecado por suas heranças. Aqui, penso em cineastas como Tarantino e Scorsese, que assumem a história (do cinema, mas não só) como um parque temático, por assim dizer, (re)visitando-a com a obsessão de uma criança para quem a história se converte em uma série de brinquedos.

      2) O cinema pós-moderno é um cinema em que a realidade perdeu seu lastro e o que interessa é o que está além dela. Estamos no reino daquilo que Baudrillard (outro autor importante quando se trata da questão do pós-moderno) chama de hiper-real: a imagem de cinema se converte num simulacro que precede e engloba a suposta "realidade". O exemplo máximo para mim aqui é Apocalypse Now, que recria ferozmente a guerra dos EUA no Vietnã a ponto de envolver a destruição de enormes trechos de floresta com napalm para as filmagens (a fonte dessa informação é o próprio Baudrillard). Além disso, Apocalypse Now de certa forma participa da condição descrita no item 1, na medida em que, como Baudrillard também argumenta (no livro "Simulacros e Simulação"), o filme de Coppola reescreve a história.

      3) O cinema pós-moderno é um cinema de citações, de referências cruzadas em uma lógica intensa e abundante de alusões. Eu poderia ser esquemático, com o risco de ser simplista, e dizer: o cinema clássico é ilusionista, o cinema moderno é anti-ilusionista e o cinema pós-moderno é alusionista. Talvez isso tenha algum sentido, embora eu não ache que a generalização seja válida. Em todo caso, esse alusionismo me parece crucial para o cinema pós-moderno e está relacionado com as duas condições ou características anteriores: a história (do cinema) se converte num parque temático porque passa a ser vista como um manancial ao qual se pode fazer alusões de inúmeras formas diferentes; a realidade se torna rarefeita e o hiper-real emerge na medida em que o ilusionismo realista da representação dá lugar ao alusionismo hiper-realista da simulação.

      Há sem dúvida mais coisas importantes que estou esquecendo, mas a resposta já está gigante (nem sei se o Formspring aceita isso tudo) e eu acho que nós ganhamos mais se conversarmos, em vez de eu ficar enrolando pra colocar as ideias em ordem aqui. Então, é isso. Vamos conversando. E obrigado pela pergunta.

    9. Marcelo R. S. Ribeiro

      Não sou um conhecedor maior de Cartier-Bresson para poder escrever sobre ele assim, sem uma motivação/questão mais precisa. Em todo caso, como fotógrafo do "momento decisivo", ele atualiza na fotografia todo um debate anterior do campo da pintura, relativo à questão da representação do tempo e, particularmente, da relação entre os momentos retratados nas imagens e os acontecimentos (como fluxo de momentos, por assim dizer) dos quais aqueles momentos fazem parte. Com efeito, o "instante pregnante" constitui um horizonte de sentido importantíssimo para a representação de acontecimentos históricos, resolvendo o problema da dissociação entre momento representado e acontecimento. A proposição dessa noção de "instante pregnante" é de Gotthold-Ephraim Lessing, no seu Laocoon (1766) e me parece que Cartier-Bresson é um herdeiro dessa proposta. Se com o instantâneo fotográfico se inaugura a era da reprodutibilidade técnica de qualquer instante, transformando cada mínima fatia da duração do mundo em mero instante qualquer, Cartier-Bresson recupera a solução de Lessing para o dilema da pintura ao fazer da fotografia a arte do instantâneo, sem dúvida, mas sempre em busca do "momento decisivo". Essa busca pelo "momento decisivo" acaba por levar a uma ênfase enorme no momento do clique como momento definidor da imagem fotográfica, como se não fosse relevante tudo o que se faz antes e depois do clique. É daí que o Arlindo Machado tira a ideia de uma "mística do momento decisivo" que reduz ou limita, historicamente, as possibilidades heurísticas e estéticas da fotografia (aqui, por exemplo: http://www.studium.iar.unicamp.br/dois/1.htm). É isso que me suscita o nome de Henri Cartier-Bresson, além da fascinação com sua belíssima obra, que eu no entanto gostaria de conhecer mais a fundo.

    10. Marcelo R. S. Ribeiro

      É uma pergunta abrangente, cuja resposta só poderei esboçar, Rodrigo. Obrigado por me dar a oportunidade de compartilhar um pouco do que penso sobre Hollywood.

      Acredito que o paradigma hollywoodiano de cinema narrativo constitui uma referência (positiva ou negativa) incontornável para quem lida com cinema no mundo contemporâneo. Escrevo "quem lida com cinema" pensando tanto em quem produz - nos tantos "realizadores" (palavra que me parece preciso interrogar devido a seus pressupostos, sobretudo no que diz respeito à teoria e à crítica, que se tornam atividades não-realizadoras...) que buscam se expressar por meio do cinema - quanto em quem pensa cinema - nos críticos (que em contexto jornalístico têm pensado mal o cinema e se contentado a falar de filmes de forma mais ou menos isolada, na maior parte dos casos) e nos pesquisadores (quase sempre vinculados às universidades). Escrevo "no mundo contemporâneo" para deliberadamente generalizar uma situação que percebo nitidamente no Brasil, consciente de todos os riscos que uma generalização envolve. Como referência, Hollywood pode ser o exemplo a ser seguido ou a problemática a ser questionada (ou deixada de lado - mas deixada de lado Hollywood permanece ali, como uma assombração, daí seu caráter incontornável, a meu ver).

      Daí resulta, a meu ver, a necessidade de uma prática questionadora e de um pensamento crítico sobre Hollywood. Só que tanto uma como o outro só poderão se desenvolver na intimidade, não no distanciamento. A figura paradoxal de uma proximidade mais crítica do que o distanciamento é o que eu sugeriria que se torna mais crucial diante de Hollywood. Uma intimidade desconstrutiva, eu diria.

      Lidar com Hollywood hoje passa por reconhecer e explorar as potencialidades que os meios digitais encerram. Podemos interromper, modificar e refazer sequências, ritmos de montagem, convenções de gênero etc. quando assistimos a filmes em DVD e similares. Podemos reconstruir de forma ainda mais radical o fluxo das imagens por meio de recursos de edição básicos, muito usados hoje por quem posta vídeos de paródia, trailers de filmes que não existem e "brincadeiras" do tipo no YouTube. Penso que essas e outras potencialidades que o digital encerra se encontram em geral domesticadas como diversão, como passa-tempo inócuo ou como recursos pouco utilizados (poucos espectadores irão de fato assistir uma sequência de ação, com montagem rápida, colocando tudo em câmera lenta e parando de plano em plano no DVD). Mas acontece que a potencialidade para um deslocamento, mesmo que sutil, do que faz Hollywood, está dada de forma muito mais viável do que antes. Entre o que se ganha e o que se perde na convergência digital, penso que uma das tarefas mais cruciais de quem lida com o cinema hoje é a exploração das potencialidades do digital. E essa exploração só se torna possível de fato com intimidade, como disse. Portanto, é preciso fazer da intimidade que somos forçados a desenvolver com o paradigma hollywoodiano uma intimidade desconstrutiva.

      Por outro lado, penso que precisamos abrir espaço para a alteridade, em suas múltiplas figuras. O campo cinematográfico mundial é um campo de batalha por visibilidade, no contexto de uma economia audiovisual marcada pela lei econômica capitalista. Tornar visíveis "outros" cinemas (diferentes de Hollywood) passa também por lutas muito concretas em torno de distribuição e exibição, mercado etc. Num outro sentido, a abertura para a alteridade coloca questões de legibilidade: é preciso construir formas de leitura fílmica, por assim dizer, que correspondam à singularidade dos filmes, dos cinemas. Aqui, torna-se insuficiente demarcar diferenças em relação a Hollywood ou partir do paradigma hollywoodiano como quadro de leitura. É o risco de todo exercício comparativo - transformar um dos termos da comparação em moldura da mesma - que precisamos evitar. Aqui, as dificuldades são inúmeras, pois não há uma metalinguagem neutra, uma moldura além de todas as molduras. É no jogo entre as molduras, entre os cinemas, que poderá talvez se insinuar e se deixar entreouvir a cada vez a singularidade das mais radicalmente diferentes estéticas cinematográficas.

    11. Marcelo R. S. Ribeiro

      perguntas e respostas de qualquer tipo. to conhecendo por agora também, explorando melhor aos poucos.

Marcelo R. S. Ribeiro

Goiânia

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Autor e editor do @incinerrante, com textos sobre cinema, fotografia, televisão, vídeo e arte.

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