
Como você se dá com o resquício da cultura cristã de culpa, medo e pecado que há em toda a civilização ocidental? Mesmo tendo uma perspectiva filosófica, estas questões não te aflingem pessoalmente em alguns momentos particulares?
Claro que sim. Nasci sob essa cultura. Dizer que ela não me atinge e formou grande parte do que sou seria de um autoengano retumbante.
Porém temos que distinguir as coisas. Nascemos sim sob ela, mas isso não significa que seja impossível deixar de reafirmá-la. Seja para reafirmá-la ou para contestá-la, ela está embrenhada e determinando as relações entre nós e o mundo, pois não somos seres isolados, somos seres que se forma pelas relações que estabelecemos.
Há algo que realmente me incomoda. Não é que me incomoda porque eu tenha a resposta. É justamente por fazer parte de minhas reflexões e eu ainda nao ter chegado a uma conclusão que acaba por me incomodar muito.
A questão da esperança e do salto de fé. Parece-me cada vez mais que o ser humano não conseguiria sequer dar um passo à frente se não tivesse fé. O ateu que adora dizer que fé é ignorância se apega à esperança e à confiança de que o futuro reserva um lugar melhor, mesmo que para isso seja obrigado a acreditar na capacidade de progresso, na ampliação da consciência humana, na ciência, no capitalismo, em algum regime político qualquer.
Isso, para mim, é o mesmo niilismo do platonismo cristão que Nietzsche denunciava. Poucos são os que se encravam no aqui e no agora com a responsabilidade de construir o futuro que deseja sem se anular em prol de esperanças. Vejo tanto ateus quanto crentes idealistas no pior dos sentidos.
Outro tipo de niilismo que despreza o futuro e não tem esperança alguma também me incomoda. Ele faz com que nos larguemos de acordo com as circunstâncias e vivamos como se fosse o último dia de nossas vidas. Tantas possibilidades incríveis morrem por essa estética existencial!!!
Entre um e outra, fica um dilema incrível. O cristianismo usa as ferramentas dogmáticas que tem para colocar a consciência do fiel em um futuro que ninguém pode dizer se é real ou não, mas que precisa ser aceito como verdade para não sofrer punição. Inculcam culpa e determinam como pecado toda ação que desvie daquilo que a autoridade estabeleceu como caminho na interpretação que fez da literatura sagrada.
O medo é a mola propulsora disso tudo. É pelo terror que se controla o homem. É assim em toda religião institucionalizada e em todo regime totalitário. Triste isso.
Historicamente vemos que todo messianismo nasce em momentos instáveis e de crise. O homem procura refúgio contra a incerteza do futuro e vira um prato cheio para quem tem projetos políticos usar o medo religioso para direcionar as pessoas.
Esse caminho do meio que tento construir para mim não é um caminho exclusivo ateu ou teísta. É um caminho apenas de quem consegue se perceber responsável pelo futuro. Mas não uma responsabilidade em seguir regras, esperar ou cumprir ordens. Mas uma responsabilidade de construir regras, agir e entrar em acordos plurais sobre o que fazer e cumprir.
Esse caminho está diametralmente oposto ao da subserviência, do medo, da culpa e do pecado. Portanto, mesmo imersos nessa cultura, nos tornamos um movimento de resistência. Inclusive no aspecto dessa mesma cultura a qual os próprios ateus seguem sem saber.
Abraços e obrigado pela pergunta....
