Pergunte-me o que gostaria de saber de mim!

RSS Feed
    1. Gilberto Miranda Junior
    2. Gilberto Miranda Junior

      Claro que sim. Nasci sob essa cultura. Dizer que ela não me atinge e formou grande parte do que sou seria de um autoengano retumbante.

      Porém temos que distinguir as coisas. Nascemos sim sob ela, mas isso não significa que seja impossível deixar de reafirmá-la. Seja para reafirmá-la ou para contestá-la, ela está embrenhada e determinando as relações entre nós e o mundo, pois não somos seres isolados, somos seres que se forma pelas relações que estabelecemos.

      Há algo que realmente me incomoda. Não é que me incomoda porque eu tenha a resposta. É justamente por fazer parte de minhas reflexões e eu ainda nao ter chegado a uma conclusão que acaba por me incomodar muito.

      A questão da esperança e do salto de fé. Parece-me cada vez mais que o ser humano não conseguiria sequer dar um passo à frente se não tivesse fé. O ateu que adora dizer que fé é ignorância se apega à esperança e à confiança de que o futuro reserva um lugar melhor, mesmo que para isso seja obrigado a acreditar na capacidade de progresso, na ampliação da consciência humana, na ciência, no capitalismo, em algum regime político qualquer.

      Isso, para mim, é o mesmo niilismo do platonismo cristão que Nietzsche denunciava. Poucos são os que se encravam no aqui e no agora com a responsabilidade de construir o futuro que deseja sem se anular em prol de esperanças. Vejo tanto ateus quanto crentes idealistas no pior dos sentidos.

      Outro tipo de niilismo que despreza o futuro e não tem esperança alguma também me incomoda. Ele faz com que nos larguemos de acordo com as circunstâncias e vivamos como se fosse o último dia de nossas vidas. Tantas possibilidades incríveis morrem por essa estética existencial!!!

      Entre um e outra, fica um dilema incrível. O cristianismo usa as ferramentas dogmáticas que tem para colocar a consciência do fiel em um futuro que ninguém pode dizer se é real ou não, mas que precisa ser aceito como verdade para não sofrer punição. Inculcam culpa e determinam como pecado toda ação que desvie daquilo que a autoridade estabeleceu como caminho na interpretação que fez da literatura sagrada.

      O medo é a mola propulsora disso tudo. É pelo terror que se controla o homem. É assim em toda religião institucionalizada e em todo regime totalitário. Triste isso.

      Historicamente vemos que todo messianismo nasce em momentos instáveis e de crise. O homem procura refúgio contra a incerteza do futuro e vira um prato cheio para quem tem projetos políticos usar o medo religioso para direcionar as pessoas.

      Esse caminho do meio que tento construir para mim não é um caminho exclusivo ateu ou teísta. É um caminho apenas de quem consegue se perceber responsável pelo futuro. Mas não uma responsabilidade em seguir regras, esperar ou cumprir ordens. Mas uma responsabilidade de construir regras, agir e entrar em acordos plurais sobre o que fazer e cumprir.

      Esse caminho está diametralmente oposto ao da subserviência, do medo, da culpa e do pecado. Portanto, mesmo imersos nessa cultura, nos tornamos um movimento de resistência. Inclusive no aspecto dessa mesma cultura a qual os próprios ateus seguem sem saber.

      Abraços e obrigado pela pergunta....

    3. Gilberto Miranda Junior

      ahahahah... Oras, o Obama... Até pq ele tem que amar mesmo e precisa enfrentar o estrago que seu antecessor fez lá desnecesariamente... Quero ver é peito para fazer isso!!!! rs

    4. Gilberto Miranda Junior

      Não tenho dúvida sobre isso, caro Franciso. Na verdade, se eu quiser ser bem objetivo, eu apenas concordaria. Mas como somos filósofos, sabemos nós que a subjetividade é que garante a acuracidade da objetividade (um bom tema esse, aliás rs)...

      Bem... Mesmo que reconheçamos os grilhões que nos aprisionam, o julgamento de que se trata de grilhões já nos faz perceber um posicionamento perspectivo. O que é grilhão para um se constitui o ponto de libertação para outro.

      Se considerarmos o mundo um caleidoscópio de perspectiva que compõe algo que chamamos de realidade, muitas vezes é preferível não enxergarmos certos grilhões e fantasiarmos que somos de fato livres. Não que isso funcione e nos tornasse realmente livres, mas ao menos não nos daria o dissabor de ver a corrente e ser impotente diante dela.

      É por isso que gosto de Nietzsche. Ele nos deu uma saída para essas correntes. Ele nos convoca a amá-las também. Mas não toda corrente, não aquelas impostas. O Amor Fati é o amor àquela corrente que escolhemos valorizar e não àquelas que nos são impostas para controle de outrem... Eis aí, para mim, a verdadeira possibilidade da Filosofia..

      Ou seja, a Filosofia não só nos possibilita reconhecer os grilhões, mas também escolhermos quais amar dentro de critérios que só nós podemos construir e nos responsabilizar por eles... É lindo, não é?

      Grande abraço, amigo....

    5. Gilberto Miranda Junior

      Outro aparente paradoxo. Mas talvez esse nos demonstre logicamente que é impossível postular algo de forma absoluta. Vejo essa afirmação muito mais como contradição do que como paradoxo. Se é impossível afirmar algo de forma absoluta, isso não significa que essa afirmação seja absoluta, mas verdadeira dentro daquilo que nos alcança a percepção que temos.

      Confundem, em geral, relativismo com perspectivismo, mas é óbvio que são coisas diferentes. Não somos dotados de onipresença para dizer que o que enxergamos, por mais abstração que façamos, consiga abarcar a totalidade de algo. Olhamos uma bola e apostamos em sua circunferência a partir de nosso ponto de vista. Mesmo que olhemos atrás dela e atestemos essa circunferência, continuamos apostando que o outro lado (que já vimos) continua da mesma forma. Nossa perspectiva é um vetor entre ponto de vista e aposta.

      Isso torna as nossas visões, conceitos e conhecimento relativos à perspectiva que adotamos, mas não significa que “tudo” seja relativo. No entanto, se houver algo absoluto, só poderemos afirmá-lo com uma aposta a partir de nosso ponto de vista: perspectivo.

      Essa pergunta é contraditória porque ela parte de uma afirmação condicional que precisa ser aceita acriticamente. Não é possível afirmar que tudo seja relativo para depois perguntar se essa afirmação é absoluta ou não.

      Abraços e mais uma vez obrigado pelas perguntas, me honra muito...

    6. Gilberto Miranda Junior

      Esses paradoxos nos mostram inequivocamente os limites do pensamento lógico e conseqüente, não é? Isso é ótimo. Mostra-nos a possibilidade de várias lógicas e não de uma única lógica. A lógica, em meu modo de ver, se atrela ao campo justificativo de um discurso. Eu costumo considerá-la em 3 dimensões:

      a – Uma instância metafísica que traduz uma lógica (forma de ser, razão) universal pela qual os homens teriam acesso e se utilizaria para dar estatuto de verdade ao que diz sobre o mundo – aqui teríamos um sentido metafísico para a lógica e afirmaríamos apenas a existência de uma única lógica em tudo.

      b – Uma criação humana como ferramenta pela qual apuramos e melhoramos nosso campo de justificação para o que falamos – aqui teríamos um sentido evolucionista etapista, iluminista e positivista que, dialeticamente nos faria chegar a uma única lógica em tudo.

      c – Uma catalogação ou estudo das formas existentes de justificação com o intuito de aperfeiçoá-las para objetivos específicos – aqui teríamos um sentido evolucionista horizontal, sem localização, contingente e utilitarista.

      Eu, sinceramente, pendo a encarar a lógica pela forma c. E essa forma de encará-la me faz ver que exista uma lógica própria nos mitos assim como existe uma lógica própria na ciência, na filosofia, na arte. E que, epistemologicamente, só podemos estabelecer uma hierarquia para elas de acordo com o que pretendemos que a informação obtida nos sirva. Encarando-a assim, não existiria, portanto, nem um caminho que nos levaria a uma única lógica de forma progressista (forma b), nem tampouco um caminho metafísico determinando uma realidade a ser conhecida pela segunda navegação platônica (forma a).

      Mas respondendo sua pergunta rsrsrsrs Se admitirmos a possibilidade desse cabeleireiro ter dupla personalidade, o paradoxo não acontece rsrsrs.

      Abraços

    7. Gilberto Miranda Junior

      Infelizmente a pergunta não saiu inteira, que pena! No entanto espero entendê-la para responde-la como merece.

      Você me faz uma afirmação, faz uma ponderação que a reforça e pergunta o que acho. Ficou-me a dúvida se você pergunta minha opinião sobre o Devir ou sobre o que você pensa sobre o Devir.

      Sobre o Devir posso te indicar alguns artigos meus que discorro sobre ele. Neles, eu desenvolvo não só minha visão do que ele significa para mim, mas também do que penso que ele representa em nossa existência. Eis os artigos:

      http://filosofiageral.wikispaces.com/page/view/DEVIR

      http://blog.gilbertomirandajr.com.br/2010/02/o-tragico-como-remedio-para-o-niilismo_05.html

      http://blog.gilbertomirandajr.com.br/2010/01/choque-cultural-devir-e-dever-no-bbb_29.html

      http://blog.gilbertomirandajr.com.br/2010/01/fazendo-eco-aqui_24.html

      http://blog.gilbertomirandajr.com.br/2010/01/politicas-da-imanencia_19.html

      http://blog.gilbertomirandajr.com.br/2010/01/do-dever-em-nao-devir_09.html


      A partir desses textos, se você tiver paciência de lê-los e absorvê-los na proposta que eles trazem, verá que minha argumentação parece ir de encontro às suas colocações iniciais. Porém há ressalvas de minha parte a serem feitas. Admito que em nossa constituição enquanto espécie, o Devir foi um dos maiores problemas que tivemos. O “tornar-se” das coisas, a multiplicidade, a incerteza, a imprevisibilidade, para uma sociedade em formação pode ser encarado, de fato, como algo funesto e temerário.

      O Devir enquanto realidade experimentada, é algo que numa situação precária e de necessidade transforma-se em motivos de penúria, desesperança e imediatista que desagrega todo e qualquer planejamento que se pretenda fazer para se chegar a um resultado almejado.

      Nos animais, embora não penso que o Devir cesse, ao menos encontramos, via instinto e adaptação, um certo assentamento econômico dado sem, contudo, se constituir em um caminho tranqüilo. Há, para se chegar a esse estado quase que simbiótico com o Devir, muito sofrimento entre os animais. O equilíbrio ecológico, além de ser pontual, ele não vem fácil e sem penúrias.

      A penúria humana parece ser mais patente porque simplesmente antecipamos e nos projetamos ao futuro, problematizando o presente com vistas à satisfação de nossas necessidades no futuro. Isso é uma fonte de angústia tremenda e só garantindo esse futuro, via concepção teleológica, é que o Devir se torna menos penoso. No entanto não penso que seja esse apenas o caminho, além do que, se fosse, parece-me que o efeito colateral é muito mais funesto.

      Na ânsia de controlarmos ou nos iludirmos que controlamos o Devir, nos submetemos à autoridades que constroem por si mesmas um Télos que devamos seguir. Mesmo que haja um Télos transcendente que nos mova a algum lugar, postulá-lo a partir da interpretação de alguns que se arrogam uma certa autoridade para tal, parece-me abrirmos mão de nossa parcela criativa de criarmos futuros possíveis em nossa relação com esse Devir.

      Pois bem, por mais penoso que possa parecer a imponderabilidade do diverso, do indistinto e do não-teleológico, enquanto civilização teríamos todas as condições de jogarmos coletivamente com o Devir para construirmos e nos responsabilizarmos por um futuro discutido democraticamente.

      Em minha forma de pensar, a marca de nossa aberração como seres (animais humanos), é justamente abrirmos mão do enfrentamento da realidade enquanto Devir para deitarmos em berços esplêndidos e nos colocarmos à mercê da vontade alheia sobre nós. O vilipêndio e a exploração que advém disso não é mero receio, mas fato histórico que se encontram nos anais do tempo em um mundo que estabeleceu metafisicamente seus sentidos.

      Muito obrigado por sua pergunta e, por favor, se caso não lhe respondi à altura, estou à disposição.

    8. Gilberto Miranda Junior

      D – todas as alternativas. No meu caso a escrita é construção de mim mesmo e do mundo em sua relação comigo. Tenho um pouco disso pela fala também, mas sinto que é no escrever que navego no limite de mim construindo infinitos nos termos de José Gil. Escrever é minha dança; produtora de infinitos por excelência.

      Mas definamos esse infinito. Não é um infinito em extensão, mas um infinito que afasta limites, embora não seja ilimitado. Entende? Ao mesmo tempo em que a escrita me dá medidas, ela me expande. Essa medida não é limitadora, mas construtora de sentidos. A escrita constrói sentidos em mim daquilo que borbulha e jorra indistinto. Por mais que empreenda um raciocínio que direcione esse jorro, é no escrever que eu materializo e me retroalimento de suas medidas.

      Por isso é válvula de escape, mas também de retenção, catarse, pura necessidade, imprescindível para meu bem viver e tem o aspecto externo, de impacto estético que solicita reconhecimento. É tudo isso junto e muito mais que fica numa zona de indistinção e é percebido e vivido no devir; tanto no ato de escrever, quanto no ato de acompanhar quem lê e na própria leitura que faço posteriormente.

      Abraços

    9. Gilberto Miranda Junior

      Prezado amigo Francisco, você chegou a um ponto da maior relevância. Uma conseqüência possível de minha resposta anterior seria a completa indiferenciação entre essas duas expressões artísticas, no entanto a coisa não é bem assim ao meu entender. Um dos pontos que podemos recrutar para olhar essa questão é a distinção entre entretenimento e arte. Embora entretenimento também seja chamado de arte em muitas ocasiões, é preciso diferenciá-lo em suas características próprias.

      Faço uma análise sucinta sobre isso no artigo “Do Dever em Não Devir” que fiz com base na obra da artista portuguesa Alice Valente, e que pode ser lido no endereço:

      http://blog.gilbertomirandajr.com.br/2010/01/do-dever-em-nao-devir_09.html

      Especificamente, esta análise está na parte chamada “A Arte como Fundamento da Cultura”. Nela eu digo, com base na diferença entre transcendência e imanência:

      “Arte é imanência, por isso Cultura. Emerge da singularidade como jorro criativo e compõe o discurso identitário coletivo, ou seja, o Logos: entrando nesse jogo de construção constante do real e da verdade. O entretenimento não. Ele é superestrutura que defenestra a singularidade em nome de um modo coletivo de SER, metafísico, determinando uma verdade que constrói uma realidade engendrada por um sistema de idéia fixado ideologicamente.”

      Eu não possuo critérios objetivos que me façam dizer que a Nona Sinfonia de Beethoven seja melhor que o Rebolation, mas explico minha preferência por Beethoven a partir da minha identificação estética pela forma como sua obra foi cunhada. E essa forma se alinha à clara percepção de que elas se distinguem da forma como ganham ou constroem sua faticidade.

      Ainda insisto que não há critérios objetivos. Não é porque uma obra seja feita a partir da imanência de um artista que ela é simplesmente arte e outra que seja feita pela transcendência do sistema não seja. O caminho é o inverso e não tem a ver com elitização. Quanto maior o nível de informação ou formação, mas valorizado se torna um certo tipo de obra que traz como característica esse jorro que ultrapassa a superestrutura do entretenimento puro e simples.

      Não posso dizer de maneira absoluta que a Nona Sinfonia de Beethoven seja superior esteticamente ao Rebolation, mas posso, a partir do meu gosto, dizer os motivos que justificam a preferência pela Nona Sinfonia e minha ojeriza pelo Rebolation. Os motivos são simplesmente a racionalização de algo que irrompe em meu gosto estético, sem que se transforme em uma transcendência que o determine.

      Por fim, vale reproduzir mais um trecho do artigo que me referi mais acima:

      “O entretenimento confundido com arte fez com que Platão só aceitasse a arte que direcionasse o espírito humano para sua teleologia do Belo, do Justo e do Bom, ou seja, a arte como Dever e instrumento para conhecer “A Verdade” (preconizada como única e advinda de um plano superior extra-mundano e extra-sensível). Para Platão o que saísse desse objetivo ou dessa idiossincrasia era pura mimese.

      Não entrarei aqui nas diversas fases (e possibilidades interpretativas dessas fases) da Poíesis de Platão. Basta mencionar que a exaltação da criação humana em O Banquete é abandonada em A República, em Fedro e depois tentada uma conciliação em O Sofista.

      Nietzsche vem ao encalço de Platão, claramente em oposição a arte como adjutório legislativo do Estado.. Curiosamente, mesmo em oposição, Nietzsche e Platão comungam o sonho da arte como algo mais elevado e redentor no homem (transformador, eu diria), mesmo que por vias completamente diferentes: um [Nietzsche] a partir da imanência e outro [Platão] a partir da transcendência.

      Para Platão a arte deveria ajudar o homem a transformar-se virtuosamente naquilo que ele precisa ser para uma sociedade feliz. Por isso a arte que facilita o simulacro e a criação de “irrealidades” era condenada, pois só a representação que nos conduz à racionalidade deveria ser valorizada. Para Nietzsche, no entanto, era justamente essa arte que Platão defenestrava que constituía a força humana transformadora que reformulava o homem na criação de enfrentamentos estéticos da realidade.

      Nietzsche em O Nascimento da Tragédia e o Espírito da Música e tardiamente em seus fragmentos da década de 1880, explica como os gregos domaram apolineamente Dioniso e sua sede destruidora e afeita ao monstruoso da realidade mais nua e crua. Esse gênio grego, ao dominar Dioniso, mas concedendo-lhe espaço para viver, transformou a Grécia na mais espiritualizada e artística nação jamais vista, possibilitando tanto a mais refinada arte quanto a própria Filosofia. A queda (chamada por Nietzsche de decadence) veio da retirada sistemática dos aspectos dionisíacos da arte grega: a partir de Eurípedes no Teatro e a partir de Sócrates (o platônico) na Filosofia.

      Para Nietzsche a arte e a possibilidade humana de construção de si próprio na alteridade (no jogo de forças entre as Vontades de Potência) deveria ser o fundamento da Cultura. Para a corrente tradicionalista platônica, a Cultura desperta e legislada teleologicamente deveria ser o fundamento da arte; na prevalência de uma Verdade que não se assume como perspectiva e traduz uma Vontade de Potência absoluta e niilista per excelence. Esse niilismo é decorrência da própria razão elevada ao estatuto de “verdadeira natureza humana” e levada à Vontade de Nada a partir do medo humano da ignorância, do obscuro, da incerteza e do imponderável: um terreno prolífero para a dominação sistemática.”


      Curioso é notar que, mesmo em lados opostos, tanto Nietzsche como Platão iriam preferir Beethoven ao Rebolation srsrss....

      Grande abraço, Francisco. E por favor, se minhas respostas suscitarem alguma dúvida ou parecerem contraditórias em alguma instância, questione ok? Sem problemas...

    10. Gilberto Miranda Junior

      Sim, há relação, porém não de necessidade, só de suficiência. A relação de necessidade que parece existir, ao menos historicamente, é da consciência humana em crise diante da quebra de expectativas ou frente à novas demandas expressivas de entendimento e construção de uma nova simbólica.

      Podemos voltar ao sec. VI a.C., por exemplo, na Jônia e analisar quais as condições de possibilidade para a emergência de uma nova mentalidade que desemboca na Filosofia. Podemos avançar e ver as condições de possibilidade que fez com que no sec. IV a.C. emergisse a necessidade de entender com mais profundidade o fenômeno humano. Podemos ir adiante, ao início da nossa era e ver as condições de possibilidade para a emergência de uma filosofia messiânica. Avancemos mais e percebamos as condições de possibilidade da Renascença e o do Humanismo que desemboca na Filosofia Moderna e assim por diante. Em cada momento desses, mesmo tomados de forma macro, parece-nos perfazer um sistema simples que envolve:

      Uma Consciência em Crise – Uma Consciência Crítica – Uma Crítica da Consciência

      Fiz uma palestra sobre isso em 2008 focalizando a Filosofia Antiga, mas o esquema é o mesmo como fenômeno humano extensivo à arte – se quiser pode assistir aqui >

      http://sites.google.com/site/gilmirandajr/videos/videos---semana-filosofica-2008

      Existem momentos históricos (macros e/ou individuais) que proporcionam o tombamento e a inquietude de uma consciência que se vê diante do que não pode explicar a partir dos modelos tradicionais. Esse momento de crise (que etimologicamente significa “quebra”, “tombamento”, “ruptura”) é regido pela busca instintiva de novas possibilidades interpretativas e de significações do real. É quando a simbólica vigente já não responde mais a certas demandas ou percepções das relações entre o homem, mundo e outros homens.

      É por esse motivo eu ressalvei minha concordância em relação ao sofrimento. Não é só o sofrimento. Pode ser o êxtase também. Parece-me que a condição de possibilidade para o fervilhar artístico, científico, filosófico se centra na crise, seja ela repleta de abundância e felicidade, seja ela repleta de penúria e privação. No entanto, concordo que o medo, o sofrimento e a incerteza sejam elementos fortes e mais fáceis de se transformarem em catalisadores desse emergência expressiva criativa.

      Nesses momentos de crise a arte que expressa a construção de uma nova simbólica a vigorar acaba se transformando naquilo que chamamos de “clássico”, pois justamente catalisam a emergência da busca de novas respostas estéticas e cognitivas para um momento de ruptura e tombamento da consciência. É, como nos diz Nietzsche, quando Dioniso entre em cena para ir além do Apolíneo e estabelecer uma nova ordem das coisas.

      E veja que o esquema (embora simplificado) nos remete a uma continuidade, uma mudança de Logos a partir desse fervilhar. O tombamento, a crise, logo é substituído por uma criticidade, ou seja, a insatisfação que faz borbulhar novas formas dá lugar à crítica. Crítica e crise são palavras que vêm do mesmo radical grego “krino”, que significa separar, apartar, escolher, cortar, decidir, julgar. A crítica é a regulamentação da crise instaurada. É a re-apolinização do jorro horizontalizado de Dioniso, digamos assim.

      E após essa crítica vem a meta-crítica, ou a crítica da própria consciência que se recosntruiu após tombar-se, procurando justificar-se na construção que fez. E isso pode gerar novas crises em um círculo constante (talvez o Eterno Retorno). Interessante isso, suas perguntas me fazem pensar e isso é ótimo RS...

      Em cada fase dessa notamos um agir artístico diferente e atrelado ao fundamento da fase, assim como notamos um agir racional também diferente. Penso, nesse momento, em quase conceituar a expressão artística como aquilo que ultrapassa nossa capacidade objetiva de explicação racional, embora não seja possível desvincular a racionalidade do produzir arte. Poxa, isso puxa muitas outras reflexões, mas melhor parar por aqui RS...

      Muito obrigado por suas perguntas amigo. Abraços...

    11. Gilberto Miranda Junior

      Critérios objetivos? Definamos primeiro no que se constitui a própria objetividade a que temos acesso. Desde Kant ao menos, sabemos que a objetividade que nos resta se resume à expectativa (no caso de Kant, em uma petição de princípio) que estabelece uma correspondência entre nossa estrutura racional e uma suposta razão pela qual as coisas acontecem no devir. Essa correspondência é proporcionada, segundo Kant, por nossa intuição sensível encravada nas dimensões do tempo e no espaço: dimensões pelas quais as próprias coisas acontecem.

      Kant não percebera, no entanto, que além dessa co-participação, ou mesmo além desse co-pertencimento que causaria essa suposta correspondência, há um valor (detectado por Nietzsche) anterior e estabelecido pela necessidade imposta na relação entre o gênero humano e o mundo. Entre esse valor e essa correspondência, também fora da percepção kantiana, há ainda a linguagem como resultado de uma simbólica dada por esse interesse (necessidade); tese desenvolvida por Habermas.

      Dessa forma, citando Habermas:

      “A realidade constitui-se na moldura de uma forma vital exercitada por grupos que se comunicam e organizada nos termos da linguagem ordinária. Nesse sentido é real aquilo que pode ser experimentado de acordo com a interpretação de uma simbólica vigente.” (Habermas, Conhecimento e Interesse, 1982, p. 215)

      Dessa forma o que chamamos de “objetivo” o é pela interpretação coletiva com base em uma simbólica vigente. É um critério relativo, embora o chamemos de objetivo. Se a objetividade que nos resta é apenas o reconhecimento e identificação de uma interpretação coletiva de uma certa simbólica, não é possível determinar critérios para julgamento sobre o Belo.

      Os critérios platônicos calcavam-se nos ideais políticos e éticos pelos quais ele pensava que o mundo precisava. Eram critérios de necessidade para que seu sistema fosse o correto. Eis sua objetividade.

      O que quero dizer é que em cada contexto e em cada simbólica pela qual uma coletividade se estabelece e se organiza há critérios que são chamados de objetivos, mas que são objetivos com base numa nessa simbólica e que tampouco são absolutos nem perfazem a totalidade da realidade.

      Portanto, caro amigo, em meu modo de ver, é impossível estabelecer critérios objetivos absolutos para julgar expressões humanas artísticas.

      A arte, pelo que eu a entendo, se constitui de uma expressão humana que, mesmo estando dentro de uma simbólica que a abarque, está para além da funcionalidade e instrumentalização. E por esse motivo ela sempre está rompendo com as simbólicas, mesmo que parte dessa expressão ainda se submeta a ela. O aspecto da expressão livre que rompe essa simbólica, torna a arte instrumento de revoluções e de novos critérios para se julgar a objetividade, e com isso relativiza qualquer critério de julgamento.

      Mas não sejamos tão radicais rsrsrs... Há critérios? Sim, há... podem não ser absolutos nem dar uma objetividade judicativa, mas existem. Esses critérios só poderiam ser estabelecidos a partir de um “para quê...” e ligados à linguagem expressiva apropriada e público a qual se dirige a comunicação pretendida. Só nesse aspecto, a meu ver, eu poderia julgar que em certas circunstâncias, uma música teria mais alcance do que um quadro, que uma performance de dança seria mais efetiva que uma escultura.

      Mas que critérios são esses? Critérios que instrumentalizam a arte para um “para que...”. Ora, estabelecê-los seria quebrar justamente aquilo pelo que entendo a própria arte, ou seja: expressão da idiossincrasia humana além de instrumentalizações e funcionalidades. Se, porém, os critérios se reduzirem ao impacto estético, tudo bem. No entanto esses critérios não podem passar pela própria produção da arte, ou por parte do artista, mas sim de um produtor. Arte é livre e se for instrumentalizada só pode ser a partir da necessidade de expressão do artista.

      Não sei se ficou objetivo o que respondi, amigo, mas é um assunto vasto mesmo... Sua segunda pergunta complementa bem essas idéias todas...

    12. Gilberto Miranda Junior

      Sim, lembro. Uma análise dessa afirmação dele, sob o viés neurocientífico, existe no livro A Evolução da Consciência, de Robert Ornstein. É fantástico.

      Tenho estudado sobre a questão do corpo e da existência e percebido que com os bailarinos acontece coisa semelhante. Existe uma “inteligência motora”, digamos assim, que age aquém e além da reflexão mental, nos dando uma espécie de “sapiência” não-reflexiva que Merleau-Ponty explorou brilhantemente tanto em sua Fenomenologia da Percepção quanto em A Estrutura do Comportamento.

      Por exemplo, quando nos deparamos frente a um buraco na rua, a decisão que envolve entre pular ou desviar está calcada em muito mais do que medo ou alguma referência passada de tombos e etc. Envolve uma sabedoria construída em segundos e cálculos complicados fora do limiar da consciência e que o próprio corpo, como unidade autônoma, processa e decide. Só depois, racionalizando reflexivamente é que nos damos conta dos riscos ou do excesso de cuidado que tivemos.

      Ao dirigir minha moto, a por exemplo 140 ou 160 Km/h, numa rodovia como a Dom Pedro, sinto eu e a Sophia (nome da minha moto RS) uma unidade autônoma, trabalhando amalgamada de acordo com a circunstância (condições do asfalto, ajustes da moto, vento, sol, etc...). É fantástico. Percebo claramente em mim que, conscientemente, jamais faria isso RS... Mas a coisa flui, natural, com tranquilidade e uma sapiência assustadora. Claro que isso não dura mais que 5 minutos e minha consciência toma lugar e diminuo a velocidade, mas a experiência é fantástica. Nesses momentos já tive grande epifanias RS...

      Abraços...

    13. Gilberto Miranda Junior

      Platão iria dar uma reformulada nesses conceitos (que ele desenvolve sob influência parmenediana em A República) somente com a obra O Sofista. Até então, sob forte influência de Parmênides, Platão rejeita o aspecto da arte que ele entende como "imitação". Mesmo assim ele não consegue desprender-se daquilo que ele erigiu como sistema de pensamento e suas implicações dentro de sua Paidéia.

      Precisamos distinguir algumas coisas importantes. Por que Platão sacrifica uma notável habilidade que ele mesmo tem ao rejeitá-la a favor de seu sistema? Eu vejo dois motivos básicos nessa postura:

      1 – Sua motivação, acima de tudo, era política e sempre foi, mesmo convencido do aspecto ético-filosófico de Sócrates;
      2 – Sua crítica, sobretudo, centrava-se em opor um fim maior (filosófico e político) ao discurso poético reinante no sec. IV a.C. e estabelecer um modo de pensar que fosse além da mera eloqüência ou dos ornamentos lingüísticos.

      Portanto vejo que Platão se opõe a uma identidade específica da poieses não à poesia como um todo. Entra nesse aspecto a crítica que ele faz à questão da mimese também, mesmo ele próprio usando tanto a poesia como a mimese em seus escritos.

      Para ele a poesia e a mimese não constituíam um mal em si mesmas, mas só quando afastadas daquilo que ele tomava dentro de sua Paidéia ética-política.

      Eu, particularmente, tenho severas críticas a esse posicionamento platônico, embora procure entendê-lo dentro de seu contexto. Para mim, a poesia se encerra em uma epistemologia tão validada quanto o discurso filosófico-científico, e tendo, inclusive, a considerar o discurso filosófico muito mais amplo e indeterminado do que Platão prega.

      Temos que entender também que o grande projeto socrático-platônico (radicalizado em Platão a partir de suas viagens depois da morte de Sócrates) centra-se em encontrar e determinar um sentido para o mundo. Depois de postulado esse sentido, tudo o que desviasse dele deveria ser afastado, proibido e defenestrado.

      Sou do posicionamento (contrário, por certo, do posicionamento dos platonistas), que as manifestações humanas não precisam cumprir um propósito, nem mesmo serem somente instrumentos para este propósito. A Filosofia, para mim, por diversas vezes, tem fim nela própria e que se cumpre na medida em que debruço filosoficamente sobre meu contexto ou condição existencial. Para Platão, tudo o que não cumprisse um propósito soteriológico não tinha sentido nem razão de ser e ele elegeu o discurso filosófico como seu melhor tradutor, sendo que todo discurso (poético, político, religioso, etc) deveria estar subordinado a ele.

      Por fim, respondendo sua pergunta, não acho estranho essa postura platônica. Penso que ela é coerente com a forma dele pensar, embora não concorde. E vou além...

      Se você já teve a oportunidade de ler, por exemplo, Merleau-Ponty, verá que ele faz uma filosofia extremamente poética. Antes dele, em uma temática diferenciada, podemos ver isso em Nietzsche também e em outros que não me ocorrem agora. Por outro lado, ler alguns poetas (citando aqui Fernando Pessoa e seus heterônimos – e também por conta deles) experimentamos esteticamente uma poesia extremamente filosófica.

      A grande questão nisso tudo é que Platão não só rechaçou a poesia em virtude do que ele entendia como devesse ser a poesia, mas rejeitou a própria Filosofia em virtude do que ele acreditou que ela devesse ser. Está aí o grande mote da ojeriza dele aos Sofistas, por exemplo. O que Platão faz é reduzir a amplitude e as implicações fenomênicas daquilo que existe em virtude de sua perspectiva ética: o que foge do seu escopo ético é tido como menor ou descaracterizado dentro de suas definições. Um expediente bem dogmático.

      Poesia e Filosofia juntas? Não só é possível como desejável, meu caro. Muito obrigado por sua pergunta.

    14. Gilberto Miranda Junior

      Sim, gosto demais. Sou um motociclista novo, digamos. Comprei moto o ano passado e esse mês faz 1 ano. Sofri alguns acidentes, mas nenhum grave, ainda bem. Mas em momento algum diminuiu meu gosto por motos. Andar de moto é fascinante, mas não é possível ignorar o risco que temos, pois não depende somente de nós os acidentes que podem acontecer. Porém andar de moto se constitui em um dos momentos mais filosóficos que tenho. Pensar dentro do capacete faz com que o som do motor quase se transforme em um mantra que facilita a reflexão.

    15. Gilberto Miranda Junior

      Sim. Quer dizer, se é que hoje poderia chamar o que faço de tocar. Mas já estudei durante muitos anos clarinete, particpei de orquestras e tive uma formação erudita para música. Hoje apenas arranho um violão e me divirto.

    16. Gilberto Miranda Junior

Gilberto Miranda Junior

São Paulo

gilbertomirandajr.com.br

friends
smiles
1 all-time

Gilberto Miranda Junior’s Bio

Economista, Webmaster, Filósofo, Poeta, Motociclista...

Who Gilberto Miranda Junior responded to

  • Francisco de Sousa Vieira Filho
See all »

Who is following Gilberto Miranda Junior

  • pmoicosta
  • Luís Fernando de Almeida
  • Ernesto von Ruckert
See all »