Pergunte algo sobre Budismo

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    1. Padma Dorje

      A iluminação é além dos extremos e portanto é além de simples e complexo. E inclui onisciência, embora se você pesquisar em minhas outras respostas no site tzal, você vai ver que existe debate sobre a natureza dessa onisciência.

    2. Padma Dorje

      Quase 800. A maioria delas já está em http://is.gd/hQFwI -- aos poucos vou acrescentando novas. Algumas, porque são repetidas, serão excluídas. Já editei e separei muitas perguntas, ampliei respostas e o fato delas agora estarem agrupadas por assunto torna a procura por alguma questão antiga muito mais fácil.

    3. Padma Dorje
    4. Padma Dorje

      Oi Maria Luiza!

      Talvez exista algum tipo de salvação no budismo, que seria algo como a iluminação. Mas diferentemente do cristianismo (ou de certas formas de cristianismo), não é uma entidade externa que provê ou pelo menos avalia esse salvamento. No Budismo o Buda não é a fonte da iluminação, e também não é ele que decide quem se ilumina. Isso diferencia bastante o cristianismo do budismo.

      Até aí, tudo bem. Mas poderíamos dizer que o budista diria "só quem é budista se ilumina". E isso é, em parte, verdadeiro. Não é tão fácil entender o que é iluminação, mas o ensinamento do Buda é definido como "aquele ensinamento que leva ao estado de Buda", então tudo aquilo que produz iluminação, que faz um Buda, é "budismo". Mesmo que se chame outra coisa.

      O budismo ao longo da história entrou em debate com as milhares de tradições hindus e outras tradições indianas, como o jainismo, e muitos desses debates estão registrados. E algumas vezes o sentido do debate é "bom, isso que você chama de liberação, iluminação, não é bem o que eu chamo pelas mesmas palavras". Então boa parte desse debate interreligioso se foca sobre a finalidade dessas religiões. Então, de fato, o budismo concorda com o cristianismo que se alguém quer o resultado cristão, ela deve praticar o método cristão! O que interessa, na verdade, é o que é essa tal salvação! Isso passa no nosso controle de qualidade? Mesmo dentro do budismo, há ensinamentos do Buda que nao levam à iluminação, mas é só o que uma determinada pessoa consegue entender e praticar, então o Buda ensina, por compaixão. Ele ensina um método que não leva ao resultado final, mas a um resultado compreensível, a um resultado possível. E, de preferência, que esse resultado intermediário não se torne um obstáculo ao resultado final... mesmo quanto a isso há debate no budismo, porque algumas escolas falam de outras escolas que a iluminação delas poderia se tornar um obstáculo à iluminação mesmo! Mas isso tudo só serve para depurar o que é esse resultado, para que o resultado almejado seja realmente o de maior benefício para a pessoa e para todos os seres.

      Como o budismo tem tolerância com seus próprios metodos intermediários, que são vastamente ensinados, por todas as escolas, até hoje, aí o budismo pode ter tolerância com os métodos (possivelmente) intermediários de outras tradiçoes. Desde que o seu céu não crie obstáculos para você e para ninguém, ótimo! Pratique para chegar no seu céu! A prática da virtude, por exemplo, é em maior ou menor grau, ensinada por todas as tradições religiosas, então todas essas tradições geram grande virtude. Se elas geram Budas? Até alguma delas pode gerar, a gente não conhece todas, mas o importante é perceber que, em geral, o objetivo delas não é produzir Budas.

      Acho que as vezes eu uso essa expressão: "as tradições religiosas são incomensuráveis", não dá para medir uma pela outra, não dá nem mesmo para entender verdadeiramente uma da perspectiva da outra. E muitas vezes nós nos focamos em comparar, ou mesmo misturar elas. Mas a tolerância não acontece com o igual--do igual nós já somos amigos. A tolerância só ocorre com o diferente, com o que não entendemos, com o que não nos deixa em nossa zona de conforto. Ver que a religião do outro é diferente é essencial para a tolerância religiosa. Ter confiança na própria religião também é fundamental, ou seja, a pessoa precisa saber que está no melhor entre todos os caminhos possíveis. Ela só não precisa impor ao outro esse seu juízo. O budismo, ao contrário do cristianismo, não é proselitista. Mesmo que nós achemos que as pessoas em geral se beneficiariam da prática budista, não existe prática budista a que alguém possa ser convertido. A pessoa só segue o caminho budista porque faz sentido, e não adianta enganar ou forçar uma outra pessoa a fazer o caminho budista ter sentido para ela. Não faz sentido isso. No cristianismo isso só faz sentido, me parece, porque acreditar em Deus e em Jesus Cristo como uma força que provê e/ou avalia o seu salvamento, e que pode tudo e está sempre ali para você, é imprescindível. Existem formas de cristianismo que quase apontam um revolver para sua cabeça "se você não acreditar, você está ferrado". No budismo, acreditar é pouco importante. Você acredita no Buda como você "acredita" num médico com boas qualificações. Você vai na farmácia e toma direitinho o que ele prescreveu--e também, se você não melhorar, o seu bom médico sempre vai também dizer "olha, num caso como esse é bom pegar uma segunda opinião". Essa diferença essencial entre o budismo e o cristianismo é que define parte da atitude, embora ambas as tradições tenham plena confiança de que são o melhor caminho para os seus próprios resultados.

      Dai o que um budista faz quando vê um não-budista sofrendo? Ele não necessariamente tenta converter a pessoa ao budismo--ele tenta entender a pessoa do lado da pessoa--e, se a pessoa tem, de mérito próprio, a capacidade de ver algo de valor no caminho budista, ele provê de acordo com as requisições do outro. É preciso lembrar que no budismo não é permitido nem mesmo falar do budismo sem que o outro peça, e algumas vezes, o outro tem que pedir três vezes! Existem até formas mais proselitistas de budismo, mas todas as formas de budismo tem em comum que a prática surge da pessoa, não do outro. Isso é essencialmente diferente do cristianismo, onde acreditar, às vezes, quase basta por si só.

      Bom, mais sobre budismo e outras crenças em http://is.gd/fO7fT0

      Estou tentando escrever menos aqui, para conseguir arrumar as questões que exstão lá, mas não consigo! hahah

    5. Padma Dorje

      A iluminação inclui onisciência, então nao há nada que alguém iluminado não saiba. No caso de realizações inferiores, há um controle de qualidade por parte da sangha e do professor. As qualidades de uma pessoa com alguma realização podem ser bem evidentes, como por exemplo, constante corajosa compaixão e atitude diante de dificuldades. Mas existem também os praticantes que escondem sua realização, como parte de sua compaixão, então pode haver seres realizados que até mesmo professores de certa realização não reconheçam. Mas um professor experiente é capaz de inferir as necessidades dos alunos, então ele é capaz de situar aquela prática. No caso da meditação, existem muitas evidências, desde testemunhais até questões de postura física e conduta na vida que estão ligadas à prática, e podem ser indícios. No caso de alguém que não é professor, não cabe ficar tentando avaliar a prática dos outros. O professor precisa descobrir as necessidades do aluno, então alguma avaliação ocorre. Esta avaliação é a mesma que ele usa com ele mesmo.

      Como regra geral, um professor que não consiga inferir as necessidades de um aluno particular, não deveria ser professor daquele aluno. Então algumas vezes, por esse motivo e outros, um professor pode levar um aluno a outro professor, simplesmente mais capaz, ou apenas mais compatível.

      Existe um trabalho de Paul Eckman sobre expressões faciais, sobre como elas são universais, portanto o sentimento de desprezo tem a mesma marca facial num aborígene e num alemáo, por exemplo. Esse pesquisador também analisou a capacidade de empatia, ou seja, o quão rápido e eficientemente percebemos a emoção dos outros a partir de expressões faciais.Sabe-se que praticantes de meditaçao, shamata, por exemplo, são mais eficazes e eficientes em reconhecer as expressões dos outros. Dentro de contexto, essas expressões revelam, por exemplo, mentiras. Ao longo do tempo, no convívio com os alunos, um professor, pelas expressoes faciais, mas também por todo o mundo onde o aluno está inserido, reconhece o grau de auto-engano e hipocrisia do aluno. Quando um aluno torna-se relativamente honesto consigo mesmo e com os outros, consegue-se uma linha-base epistêmica, onde o que é falado é naturalmente reconhecido como é. Então quando um aluno fala de sua prática, o professor pode inferir o que dizer, o que recomendar. E não só isso, pode inferir o quanto da prática, até agora, foi efetivamente integrado.

      Evidentemente, quando convivemos com certos professores, é corriqueiro parecer que eles lêem nossos pensamentos. Se isso tem explicação no que eu disse acima, ou é ainda mais do que isso, não sei. Mas na minha experiência pessoal é muito comum. Nos primeiros dias na presença de um mestre assim, a pessoa pode ficar nervosa "ele sabe que estou cobiçando a mulher dele", ou algo assim. Depois, com o tempo, a mente vai ficando mais e mais transparente. Com os conteúdos expostos perante a onisciência dos Budas, tudo se corrige naturalmente, porquê é como uma grande confissão.

      Sem esse tipo de honestidade consigo mesmo, a pessoa não consegue fazer nem mesmo a mais simples prática, porque o auto-engano é tal, que ela não tem nem mesmo a capacidade de olhar objetivamente para seus próprios conteúdos mentais. A maioria de nós chega assim no budismo, e luta por anos para conseguir essa linha-base epistêmica, esse grau de integridade e honestidade para consigo mesmo, que permite avaliar objetivamente "sim, isto funciona, devo prosseguir nessa prática" ou "não, tenho que perguntar algo a meu professor". A maioria de nós passa muito tempo numa espécie de show autoconsciente, trabalhando enormemente apenas para manter uma imagem. As vezes só trocar duas palavras com um professor autêntico faz ruir milhares de auto-armadilhas.

    6. Padma Dorje

      Procrastinação, preguiça, desinteresse, covardia, tédio, falta de engajamento--má vontade. A pessoa treinando nesses estados mentais produzirá um corpo correspondente--e as características secundárias deste corpo estarão ligadas a outras ações particulares e às emoções aflitivas causadoras dessas ações particulares.

    7. Padma Dorje

      Na verdade nem tudo é impermanente. Tudo que é composto é impermanente. Por outro lado, se você pode falar de algo, é porque é composto. Como a delusão projeta esses elementos distintos, e uma cadeia causal, e tempo e espaço, a liberdade naturalmente segue operando, e não consegue sustentar a ignorância de forma contínua. A impermanência é a porta da vacuidade, da sabedoria, portanto, porque é nessas "quebras" que se pode reconhecer a liberdade operando além das fixações particulares produzidas pela delusão e às quais a delusão ela mesma se prende, por uma espécie de auto-fascínio.

    8. Padma Dorje

      O Sutra do Coração é um texto do veículo mahayana. E não é aceito como um ensinamento do Buda pelo hinayana, ainda assim, grande parte dos praticantes hinayana não acredita que haja algo de profundamente errado com o Sutra do Coração, pelo menos em certa interpretação. Existe vacuidade no hinayana, vacuidade "pequena", do eu. Não existe "grande" vacuidade, vacuidade dos fenômenos.

    9. Padma Dorje

      Os Budas só existem no tempo de acordo com o nosso próprio mérito. Os praticantes do budismo vajrayana precisam ver seus professores como Budas, portanto para os praticantes do vajrayana com compromisso puro com a prática, há pelo menos um, e na maior parte dos casos, vários Budas--com que eles tem relação direta. Esse é o raro mérito de um praticante desse tipo de budismo. Outras formas de budismo se focam no grande mérito que é pelo menos reconhecer um Buda 2600 anos atrás. Já é bastante raro alguém reconhecer um Buda pelo menos na história. Todos os praticantes budistas precisam reconhecer pelo menos um Buda acessível, nem que seja pela história, mas a maioria dos praticantes budistas reconhece mais Budas e Budas mais acessíveis. Do lado deles, os Budas não estão nem no passado, nem no presente, nem no futuro. Uma pessoa com grande mérito, tem o Buda na palma da mão. Uma pessoa de mérito intermediário, tem o Buda na história. E a grande maioria de pessoas de pouco mérito só tem a palavra "Buda" para se referir a uma pessoa histórica--e há as que nem isso tem.

    10. Padma Dorje

      Lam é caminho, Rim é gradual. É portanto um tratado ou resumo da prática do dharma do início até o final, o estado do Buda. E, claro, também a prática correspondente. Atisha escreveu um tratado deste tipo, por isso é o Lamrim "dele".

    11. Padma Dorje

      O sonho continua. O sonho pode piorar, principalmente se a pessoa não foi ética durante a vida. Ou ele pode melhorar, se ela praticou a virtude. Uma pessoa que pratica meditação, pode, durante a vida ou a morte, acordar do sonho. E também ela pode seguir num sonho lúcido, durante a vida ou a morte.

      Normalmente a pessoa sofre muito logo antes de morrer e durante o processo de morte. Só um grande praticante--que é bem raro--tem confiança na sua prática na hora da morte e penetra lucidamente nas experiências que surgem.

    12. Padma Dorje

      Casamento, no budismo, é assunto civil, da cultura. Não existe uma noção de "sacramento", como no cristianismo. O Budismo se adaptou a dezenas, talvez centenas, de culturas ao longo de seus 2600 anos, que tinham maior ou menor ênfase no casamento e nesses atributos secundários--de toda forma, são irrelevantes para o budismo.

      O Budismo está imerso em culturas que tem formas de família muito parecidas e muito diferentes da cristã. Existem até mesmo culturas budistas onde a poligamia e a poliandria são comuns. (O proprio Buda, antes de assumir a disciplina monástica, era polígamo). Tudo é impermanente, portanto não existe casamento para sempre, no máximo o que vai acontecer é um morrer antes do outro. Virgindade é um valor em algumas culturas budistas, em outras não faz importância alguma. É importante entender que isso não é relevante para o budismo ou para a prática budista.

      Já o caminho monástico tem como uma de suas definições a castidade.

    13. Padma Dorje

      Bom, a bactéria (como você deve ter lido) é um ponto de debate. Embora ela evite toxinas e busque alimento, porque ela não sente dor, é difícil estabelecer ela como um ser senciente.

      No caso dos seres que sentem, sim, esse é o critério.

      "Mesma importância", daí eu diria que não. No sentido de sua "essência", eles são a mesma coisa--o potencial é o mesmo. No sentido de suas qualidades, daí o ser humano é claro desenvolveu mais qualidades do que os animais. Mesmo um ser humano profundamente negativo pode se regenerar e fazer muito mais bem, ter muito mais compaixão, do que um animal.

      Assim há dois pontos importantes: não há diferença essencial (na racionalidade, na capacidade de compaixão) entre os seres sencientes. Mas há diferença qualitativa. Entre as diferenças qualitativas, o ser que, pelas causas e condições, manifesta ou pode manifestar mais compaixão, "vale mais". O critério não é a racionalidade, mas a capacidade para a compaixão.

    14. Padma Dorje

      Para uma coisa "existir" mesmo, ela não pode ser temporário. Tudo que é temporário, é como um sonho. Existir como sonhos, como nós e nossa realidade existem, sim. Na verdade as deidades iradas (e as pacificas, e os budas e bodisatvas) são até um pouquinho mais existentes que nós, na medida em que nós estamos embasados em circunstâncias ainda mais frágeis. Nosso sono é um pouquinho mais leve, explode como uma bolha a qualquer momento. A compaixão (irada e pacífica) é um sonho mais estável.

    15. Padma Dorje

      Em primeiro lugar, não se deveria talvez nessas qualidades como verdades. Nem absolutas. Depois, exitem seres que são a manifestação máxima dessas qualidades: os budas e bodisatvas. Eles são vazios, impermanentes e ilusórios, como todos os outros fenômenos. Eles também diferem da noção de um criador (que o budismo não aceita)--já que eles não são responsáveis pelos surgimentos.

    16. Padma Dorje
    17. Padma Dorje

      Os que não encontram e não são capazes de seguir um caminho espiritual coerente, vivem em vão no sentido de que suas vidas só produzem mais samsara--e o samsara como um todo é em vão.

    18. Padma Dorje

      As noções de separação--ausência, unidade, dualidade e multiplicidade--são criadas pela mente, isto é, são uma falsidade. Elas são uma função da ignorância, isto é, a mente que não se reconhece.

    19. Padma Dorje

      Pode parecer circular, mas se tem sofrimento, não é realidade. Para evitar essa circularidade, pense: se é temporário, não é real. Assim, uma vida como animal, não é real. É um pesadelo temporário. Da mesma forma, todas as formas biológicas e tecidos ecológicos são temporários, e portanto irreais. Isso é verdade das condições de relativa felicidade, por duradoura que aparente ser. Se é temporário, é irreal, é um sonho bom ou um pesadelo.

    20. Padma Dorje

      Praticantes inexperientes precisam agir duramente quando veem a própria negatividade ou a negatividade de outros. Porém, um praticante inexperiente deve evitar qualquer ação onde possa haver algum elemento, por menor que seja, de agressividade. Portanto, um praticante inexperiente deve provavelmente evitar coisas como gritar ou violência física. Um praticante que tenha confiança em seu compromisso para o bem-estar do outro, pode até mesmo usar de meios desse tipo, quando seguro de que não há agressividade.

      A ação compassiva que corta a negatividade é a ação que impede que a não-virtude seja cometida, e assim se evita o sofrimento da vítima, mas principalmente o sofrimento daquele que está agindo negativamente. Com essa motivação, e pelos meios que estejam disponíveis, um praticante deve abandonar sua zona de conforto e agir de forma antipática, impopular, não compreendida pelos outros e facilmente criticável.

Padma Dorje

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