O EU é uma ilusão?

  • Paralelo (Lauro Edison)

    Há quem ouse defender que sim. Eu penso que é uma conclusão impossível, pois precisamente só um eu (uma mente, uma consciência) é capaz de se iludir. Pedras não podem se iludir, e se porventura uma pedra magicamente "caísse na ingenuidade" de pensar que possui uma consciência em primeira pessoa, então ela realmente teria uma. Não seria, pois, uma ilusão.

    Tudo isso, claro, é o que está por trás do "penso, logo existo" de Descartes. É simples assim: se eu não existisse, não poderia nem mesmo me iludir, me enganar ou pensar erradamente sobre qualquer coisa.

    A literatura apresenta algumas tentativas bastante desesperadas, a meu ver, de negar que o ponto de Descartes se trate de uma certeza absoluta. Dizem que a conclusão correta seria apenas "penso, logo há pensamento" - mas como? Pensamento é necessariamente pensado por alguém. Se a abstração "pensamento" estivesse meramente solta por aí, na independência de alguém que a pensasse (e isto é tão absurdo como, digamos, a forma de uma mesa existir sem a mesa), sequer haveria a ignição "penso" ocorrida em primeira pessoa. Mas há. Então ficamos como: "penso, logo alguém pensa". Mas por que a cautela? Se quem pensa é outra pessoa, e não eu, como posso saber disso, ou ao menos "ter a ilusão da saber disso", pra começo de conversa? Eu não poderia. E, no entanto, eu sinto em primeira pessoa que penso. Ora, então essa pessoa sou eu e não outra. Na verdade essa "dedução" e essa "conclusão" são completamente redundantes, já que o ponto essencial é, meramente, que eu penso e automaticamente sei disso em primeira pessoa, sem quaisquer possibilidades de engano.

    Outra forma de ataque ao EU vem na forma de uma suspeita sobre a unidade do eu. Se o cérebro não requer nem as exatas partículas e nem a exata forma ao longo do tempo, então não retém nada de si e segue-se que a continuidade do eu é uma ilusão. Ora, mas a continuidade do eu é um fato muito mais consolidado, introspectivamente, do que a continuidade das leis da física, fundada tanto na própria percepção introspectiva que se está questionando quanto, além disso, na indução e numa série de suposições não exatamente perfeitas. Então, se é que temos de ter uma incompatibilidade real aqui (provavelmente não temos), pior para as leis da física. Em todo caso, esse é sequer um bom argumento? O próprio cérebro físico não é, apesar de tudo, uma só entidade cujas partes trabalham coordenadamente?

    E afinal o que é a continuidade e unidade do eu senão a sensação subjetiva da continuidade e unidade do eu? Haver a sensação de continuidade/unidade já é haver a própria continuidade/unidade.

    Algumas pessoas parecem se considerar sofisticadas ao se conceberem como "uma coleção de eus" - um que tem fome, outro que teme, outro que pensa, etc. Mas a menos que isto seja uma metáfora interessante, que significado real poderia ter? Que sentido há na ideia de dois "eu" SEPARADOS se, na prática, "um" tem plena consciência daquilo que o "outro" é consciente? Eu sou diferente do meu vizinho porque o campo subjetivo dele é vedado à minha percepção e interferência. Mas o mesmo não pode ser dito das diversas facetas interiores do meu eu: o "eu" que sente fome sabe perfeitamente como se sente o "eu" que deseja concluir o texto antes, e ainda há o "eu" que, de cima, observa os dois - e os três são totalmente transparentes uns aos outros. Ora, é uma questão de palavras: essa visão panorâmica, compartilhada por todos, é do que se trata a unidade do eu. EU sou aquele que acessa o total desses dados interiores. É assim que a palavra funciona. Dizer, em vez disso, que cada nuance do meu interior é um "eu" separado é na verdade bem mais inapropriado do que dizer que eu tenho vários corpos: o coração, o fígado, os músculos, etc.

  • Paralelo (Lauro Edison)

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