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Há quem ouse defender que sim. Eu penso que é uma conclusão impossível, pois precisamente só um eu (uma mente, uma consciência) é capaz de se iludir. Pedras não podem se iludir, e se porventura uma pedra magicamente "caísse na ingenuidade" de pensar que possui uma consciência em primeira pessoa, então ela realmente teria uma. Não seria, pois, uma ilusão.
Tudo isso, claro, é o que está por trás do "penso, logo existo" de Descartes. É simples assim: se eu não existisse, não poderia nem mesmo me iludir, me enganar ou pensar erradamente sobre qualquer coisa.
A literatura apresenta algumas tentativas bastante desesperadas, a meu ver, de negar que o ponto de Descartes se trate de uma certeza absoluta. Dizem que a conclusão correta seria apenas "penso, logo há pensamento" - mas como? Pensamento é necessariamente pensado por alguém. Se a abstração "pensamento" estivesse meramente solta por aí, na independência de alguém que a pensasse (e isto é tão absurdo como, digamos, a forma de uma mesa existir sem a mesa), sequer haveria a ignição "penso" ocorrida em primeira pessoa. Mas há. Então ficamos como: "penso, logo alguém pensa". Mas por que a cautela? Se quem pensa é outra pessoa, e não eu, como posso saber disso, ou ao menos "ter a ilusão da saber disso", pra começo de conversa? Eu não poderia. E, no entanto, eu sinto em primeira pessoa que penso. Ora, então essa pessoa sou eu e não outra. Na verdade essa "dedução" e essa "conclusão" são completamente redundantes, já que o ponto essencial é, meramente, que eu penso e automaticamente sei disso em primeira pessoa, sem quaisquer possibilidades de engano.
Outra forma de ataque ao EU vem na forma de uma suspeita sobre a unidade do eu. Se o cérebro não requer nem as exatas partículas e nem a exata forma ao longo do tempo, então não retém nada de si e segue-se que a continuidade do eu é uma ilusão. Ora, mas a continuidade do eu é um fato muito mais consolidado, introspectivamente, do que a continuidade das leis da física, fundada tanto na própria percepção introspectiva que se está questionando quanto, além disso, na indução e numa série de suposições não exatamente perfeitas. Então, se é que temos de ter uma incompatibilidade real aqui (provavelmente não temos), pior para as leis da física. Em todo caso, esse é sequer um bom argumento? O próprio cérebro físico não é, apesar de tudo, uma só entidade cujas partes trabalham coordenadamente?
E afinal o que é a continuidade e unidade do eu senão a sensação subjetiva da continuidade e unidade do eu? Haver a sensação de continuidade/unidade já é haver a própria continuidade/unidade.
Algumas pessoas parecem se considerar sofisticadas ao se conceberem como "uma coleção de eus" - um que tem fome, outro que teme, outro que pensa, etc. Mas a menos que isto seja uma metáfora interessante, que significado real poderia ter? Que sentido há na ideia de dois "eu" SEPARADOS se, na prática, "um" tem plena consciência daquilo que o "outro" é consciente? Eu sou diferente do meu vizinho porque o campo subjetivo dele é vedado à minha percepção e interferência. Mas o mesmo não pode ser dito das diversas facetas interiores do meu eu: o "eu" que sente fome sabe perfeitamente como se sente o "eu" que deseja concluir o texto antes, e ainda há o "eu" que, de cima, observa os dois - e os três são totalmente transparentes uns aos outros. Ora, é uma questão de palavras: essa visão panorâmica, compartilhada por todos, é do que se trata a unidade do eu. EU sou aquele que acessa o total desses dados interiores. É assim que a palavra funciona. Dizer, em vez disso, que cada nuance do meu interior é um "eu" separado é na verdade bem mais inapropriado do que dizer que eu tenho vários corpos: o coração, o fígado, os músculos, etc. -
asked by CAugust0
Hmmm... Eu não creio ter sequer uma opinião sobre artes plásticas em geral. Nunca parei pra olhar essas coisas. Mas como em geral eu gosto de conteúdo informativo, o virtuosismo pelo virtuosismo dificilmente me impressiona. Dizer "nossa, que obra bonita, rica, evocativa!" até acontece, mas é raríssimo - preciso achar um trabalho praticamente divino para valorizá-lo só pela beleza, técnica ou pelo sentimento abstrato que evoque (e às vezes essa evocação é mais obra do meu cérebro que da pintura!). Os desenhos sinistros de Gustave Doré geralmente conseguem isso, hehe.
Tenho mais ou menos as mesmas sensações apáticas sobre música clássica ou literatura rebuscada & poesia, por exemplo.
Quando à "Arte Moderna e Contemporânea", nem sei se é o que você tem em mente, mas me lembra aquelas tão mal faladas obras toscas, tipo um quadro branco com um risco, uma tampa de privada sobre a mesa, ou outras formas de nonsense pretensioso. Sobre esse tipo de coisa, gosto do que diz House (num episódio sobre isso) no final da 7ª temporada: "não significa nada!".
Tudo o que é preciso saber sobre o tema, hehe:
http://www.youtube.com/watch?v=yDX_FVjL6Es -
Nos dois casos, o futuro está decidido. Mas no determinismo a causa disto é "eficiente", isto é, "vem de trás", do passado, das leis da física operando rigidamente desde o Big-Bang e cujo desenvolvimento só pode se dar de uma maneira. Já no fatalismo a causa disso é "teleológica", isto é, "vem do futuro", no sentido de que tudo o que ocorre agora caminha fatalmente para um destino que como que obriga os eventos atuais a se ajustarem rumo a este ponto (futuro).
O fatalismo, por isso, geralmente envolve alguma vaga ideia sobre objetivos de alguma entidade que "faz com que" as coisas rumem em certa direção – Deus, "o destino", as "forças sociais", etc. – e, por isso, também é às vezes compatível com certa maleabilidade dos eventos presentes: nem tudo estaria estritamente determinado mas, seja como for, chegaremos inevitavelmente no mesmo ponto: o juízo final, a extinção da humanidade, a ditadura do Big Brother, etc.
No determinismo, o futuro é estritamente imutável - cada gota de chuva, cada bactéria, cada salto de cada elétron, tudo só tem uma maneira de acontecer, graças às implacáveis leis da física (embora, como se sabe, certas interpretações da física quântica, mas não todas, digam o contrário). O Universo inteiro seria como um filme já filmado: o desenrolar é inalterável. Mas onde tudo vai chegar, embora determinado, é completamente arbitrário. Não há nenhum destino motivado. De fato, uma perspectiva é a morte térmica do Universo, sem qualquer significado ou razão de ser. Simplesmente será assim, determinada mas acidentalmente.
No fatalismo é alguma tendência futura, às vezes motivada por algum objetivo superior (como eu disse, de Deus, do Diabo, seja do que for), que "puxa" o presente numa certa direção. É uma ideia bastante diferente – embora, na prática, alguma versão fatalista possa ser indiscernível do determinismo.
Embora o determinista seja normalmente universal, alguém pode ser fatalista sobre apenas um trecho da realidade: o sistema solar, os rumos da sociedade ou do país, ou mesmo fatalista sobre sua vida pessoal – "uma nuvem negra me persegue, estou *condenado* a falhar!" ou "Futebol é negócio. O Brasil já é o campeão da Copa de 2014" (Kajuru, hehe). Desde que se imagine que alguma tendência irresistível obriga certos eventos a rumarem para um futuro X, isto é fatalismo. O determinismo é, pois, uma forma de fatalismo? Tão rala e desmotivada – "algum futuro imaginável arbitrário já está determinado à toa, nos mínimos detalhes" – que eu preferiria não colocar nesses termos. -
O argumento de Berkeley é, basicamente, que quando nós pensamos numa árvore – digamos, o famoso Cipreste-Solitário da Califórnia – nós estamos, na verdade, pensando apenas *no pensamento* dessa árvore. Por causa disso, é impossível pensar na árvore em si mesma. Portanto, sequer dispomos da noção de uma árvore (ou qualquer outra coisa) que seja independente do pensamento, pois mesmo ao falar em algo desse tipo estamos, na verdade, *pensando* nesse algo.
O ponto de Thomas Nagel (na verdade, de muitos outros filósofos) é que, em vez disso, nós realmente pensamos na árvore diretamente, em vez de apenas "no pensamento da árvore". Não é porque estamos *pensando* numa árvore que seja independente do pensamento que, automaticamente, estamos pensando isto sim numa árvore *pensada*.
Analogamente, o desenhista que se coloca diante do Cipreste-Solitário e começa a desenhá-lo não está, por isso mesmo, desenhado *uma árvore desenhada* - e sim desenhando a árvore não-desenhada que está fisicamente plantada diante dele. A *obra* do desenhista é, sim, desenhada; mas o objeto representado neste desenho – o Cipreste-Solitário – não é um Cipreste desenhado. A imagem dele, feita pelo artista, é que é desenhada.
A própria imagem que eu mostro aqui é uma foto de um objeto que não é foto: é um cipreste físico. A filosofia de Berkeley levaria a dizer que, em vez disso, esta foto mostra... a foto de um cipreste, e não um cipreste; portanto não pode existir nada que seja independente de ser fotografado!
Todo o problema, pois, é não entender como funcionam as representações – por um lado, elas mesmas são representações, é claro - um quadro é um quadro, um desenho é um desenho, um pensamento é um pensamento; mas, por outro, o que elas representam são coisas, e não representações, e essas coisas não precisam ser representadas para existir. Uma árvore não precisa ser pintada, desenhada, fotografada ou pensada para existir. Um quadro é um quadro, mas o que ele exibe não é um quadro. Um pensamento é um pensamento, mas sobre o que ele pensa não precisa ser um pensamento. -
Não o li diretamente, mas sei que ele dá voz à intuição de que existir é idêntico a ser percebido, experienciado por alguém. Especificamente, ele presume que é impossível pensarmos numa árvore como algo apenas existente e não pensado - segue-se (?) que existir sem ser pensado é impossível. O diagnóstico de Thomas Nagel me parece correto aqui: Berkeley está presumindo que, ao pensarmos numa árvore, estamos por isso pensando "numa árvore pensada" em vez de, meramente, numa árvore. Mas isso é tão errado quanto dizer que o desenhista está sempre desenhando "árvores desenhadas" em vez de árvores.
Além do que a interpretação de Berkeley leva a uma regressão infinita - eu tampouco posso desenhar uma árvore desenhada; só posso, na verdade, desenhar o desenho de uma árvore desenhada... oh, wait. Por que ser tão ingênuo? É claro que se trata *meramente* de desenhar o desenho do desenho de uma árvore desenhada. Ou quem dera conseguíssemos ao menos isso!
De todo modo o raciocínio original é altamente instável: ele não exclui prima facie a possibilidade (A) de as coisas existirem independentemente de serem pensadas; ele só exclui, se é que realmente exclui, (B) que possamos *pensar* nelas desse modo; a seguir, insiste retroativamente que, se o ponto B está correto, então o ponto A não foi realmente formulado ou pensado! Pois se não podemos pensar em nada que seja independente do pensamento (B), então como dar sentido à possibilidade (A) de que existam coisas independentes de nosso pensamento? Se B está correto, não podemos realmente entender A. Agora se isso realmente exclui A (porque jamais o compreendemos, dado B) ou se isso exclui B (porque evidentemente compreendemos A) é uma questão que não é determinada pela argumentação de Berkeley.
Tudo isto é interessante por si, mas se Nagel está correto, então B está errado pra começo de conversa.
E, depois, resta por explicar o fato de que, se existir é ser percebido ou pensado, seria de esperar que os móveis da casa não continuassem lá após nossas férias. Para isso, Berkeley postula que Deus, com sua percepção onisciente, é quem mantém a existência de tudo. Isso só significa uma coisa: mesmo Berkeley percebeu que a coerência do mundo, que se mantém consistente após a ausência de pensamentos direcionados a ele, precisava de explicação. A solução de Deus "fazendo tudo persistir" é praticamente uma admissão de que, afinal, as coisas não dependem de nossa percepção - sim, dependem da percepção de Deus. Na prática, isso é indiscernível de existirem por si mesmas (na prática e, a bem pensar, na teoria também: a percepção de Deus seria tal que geraria propriedades intrínsecas das coisas percebidas, e não meramente relacionais e virtuais - saberíamos disso pelo menos em nosso caso: nossa subjetividade é intrínseca, e não relativa à percepção de alguém).
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Berkeley também levantou objeções fabulosas à noção matemática, completamente paradoxal, de "infinitesimal" utilizada no cálculo - por Leibniz e por Newton, por exemplo. Basicamente se começava admitindo, num cálculo diferencial, que os valores infinitesimais eram diferentes de zero, o que era crucial para levar o cálculo adiante - no final, contudo, se os considerava "desprezíveis" (praticamente zero, portanto). Isso levou a uma solução que até hoje me desagrada: varrer o problema substantivo pra debaixo do tapete e, em vez disso, tratar os infinitesimais não como quantidades atuais, mas sim como "processos incompletos". Como expediente útil, ok. Mas detesto que se considere esse tratamento como a essência mesma do que está em ação num cálculo diferencial. Existem, pois, formalizações não-standard que tratam os infinitesimais como quantidades atuais - sem, contudo, entrar em paradoxos. Não são muito úteis mas acho que, filosoficamente, é uma bênção que existam. E parabéns a Berkeley por apontar o problema (se bem que o ponto dele era: "Vocês acham a fé incerta? Vou mostrar que até a matemática de vocês é igualmente insegura!"). -
Creio que, sobre isso, há filósofos defendendo todo tipo de resposta. Eu me pergunto o que, estritamente, diria um fisicalista: sim, certamente diria que todos os tipos de abstrações são apenas mentais - mas o que exatamente isso significa, se a própria mente é tida por eles como uma espécie de abstração também?
O termo tem pelo menos dois sentidos relevantes aqui: o de "não concreto", que seria aplicavelmente o caso das leis da física, de números ou mesmo de fantasmas; e o de "padrão percebido/extraído intelectualmente", como quando se diz que o *número* de laranjas, a *forma* de uma mesa ou o *ângulo* entre os ponteiros do relógio não são entes substantivos, e sim coisas que nós "abstraímos" dos objetos.
Minha opinião é que o segundo tipo de abstrações é, obviamente, "apenas" mental - é preciso um ser com mente para abstrair coisas desse modo. Mas como sou um realista sobre a mente, isso não equivale a dizer que tais abstrações "no fundo não existem". Na verdade existem pra valer, pois são conteúdos de nossas mentes: enquanto imaginação mental, o unicórnio que ora concebo existe tanto quanto, enquanto desenho no papel, existe o Pato Donald e, enquanto objeto físico, existe o teclado em que digito. Tudo isto é existir plenamente, nem mais, nem menos.
Quanto ao primeiro tipo de abstração, acredito que algumas existem independentemente de nossas mentes. Os detalhes podem ser confusos ou problemáticos, mas importa o seguinte: eu sem dúvida acredito que, antes de existir vida ou mentalidade no Universo, 317 já era primo. De fato, é e seria primo mesmo na ausência total de Universo físico, espaço ou tempo. Como esse é um fato certamente abstrato, segue-se que acredito na existência de algumas abstrações (matemáticas, modais talvez) fora das mentes. -
asked by leompvin
É fácil prever, não? Típico lixo continental. "Ser-aí", "fenomenologia", "hermenêutica", puta que o pariu! Como isso foi acontecer? Uma coleção de pseudo-pensadores discutindo o sexo dos anjos com métodos estéticos e delirantes, tudo pontuado por dizeres oraculares sem justificações quaisquer. Estou vulnerável à acusação de não o ter lido em detalhe (não li nenhum pseudofilósofo continental em detalhe - a não ser Nietzsche, se faz sentido considerá-lo um). Obviamente li trechos, citações e comentários diversos sobre tais pensadores. Muitas vezes fui atrás de trechos cruciais ou de supostas passagens devastadoras ou exemplares. Invariavelmente soam insanos. Muito. Eu vi mais do que o suficiente para não ter qualquer esperança de que tais obras valham algo. Na verdade, me parece bem claro que basta abrir qualquer página de qualquer livro deles para ver um amontoado de nonsenses irritantes em andamento. Aliás, deixe-me fazer um teste... vou agora mesmo baixar o primeiro e-book de Heidegger que aparecer no 4shared e abrir numa página aleatória.
Vejamos o que vem:
http://www.4shared.com/office/i7wxuCNb/Martin_Heidegger_-_A_Caminho_d.htm
(Foi o primeiro em português, página 2 da busca)
Puxei o arquivo aleatoriamente pra página 33 do pdf (66 do livro)... O que temos? "Linguagem da Poesia"... Ele está analisando algum poema/canção, e cita um verso...
<<< A canção interrompe-se com o chamado todo voltado para a admiração:
Oh, a batida noturna das asas da alma:
O verso termina com um sinal de dois pontos, incluindo assim tudo o que segue até a transição para o declínio no começo. Nessa passagem do poema, antes dos dois versos finais, encontra-se um outro sinal de dois pontos. A ele segue a palavra simples: "uma geração". O "uma" está grifado. Ao que me consta, trata-se da única palavra grifada nos poemas de Trakl. Esse acento em "uma geração" abriga o tom fundamental a partir do qual silencia o mistério da poesia desse poeta. A unidade de uma geração surge do batimento que reúne com simplicidade a discórdia entre as gerações na duplicidade mais suave a partir do desprendimento, a partir da quietude mais quieta que nele prevalece, a partir do seu "dizer de floresta", de sua "medida e lei" através das "veredas lunares dos desprendidos". >>>
¬¬'
Provei ou não provei meu ponto? É exatamente o tipo de viagem na maionese que espero encontrar... "tom fundamental a partir do qual silencia o mistério da poesia", "A unidade de uma geração surge do batimento que reúne com simplicidade a discórdia entre as gerações na duplicidade mais suave a partir do desprendimento, a partir da quietude mais quieta que..." (gerador de lero-lero 99 hits!)
Claro, mesmo esses autores escreveram calhamaços de livros - pense-se num "O Ser e o Tempo", de Sartre... Que purgante deve ser. Mas, pela quantidade, é inevitável que aqui e ali haja pensamentos corretos, interessantes, iluminadores - ou estou sendo otimista. Seja como for, no way de fazer sentido aguentar essa enrolação sem fim em busca de agulhas no palheiro que se salvem. É muito tempo pra se perder. Vá ler duas páginas de Bertrand Russell que já se ganha muito mais. -
Lixo continental típico. Não difere essencialmente das outras formas de pseudofilosofia, a meu ver. Vide resposta acima.
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Mal e mal lembro de ter lido alguma coisa interessante sobre ele... De resto, sei que é muito mais cético do que eu poderia considerar plausível. Como certa vez alguém me disse que lê-lo seria suficiente para nunca mais confiar no conhecimento, creio que eu vá tirar essa dúvida em algum momento. Obviamente aposto que foi uma indicação ingênua. Mas é isso. Não conheço praticamente nada dele mesmo.
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Se "ódio ao moralismo" significa uma crítica ao moralismo no mesmo estilo em que os moralistas criticam seus alvos, isto é, uma "crítica" sem conteúdo racional e movida apenas por uma aversão dogmática (o que, na maioria das vezes, é fruto apenas de seguir instintivamente o rebanho), então... sim.
Mas isso ocorre?
Posições como amoralismo e, também, ateísmo, anti-trabalhismo, poliamor ou anarquismo raramente são irrefletidas, justamente porque são posições minoritárias e dissidentes. Pessoas que não refletem vão, por default, adotar cegamente a posição da maioria (daquilo que consideram seu grupo) - fazem isso porque isto significava sobreviver na maior parte de nossa história evolutiva. É instintivo.
Pode ocorrer, é claro, de termos um nicho social onde, por exemplo, o anarquismo de repente prospere e, neste caso, está armado o cenário para surgirem anarquistas "por inércia", que estão apenas seguindo a moda de seu grupinho particular. Mas é difícil ver, na atual conjuntura, como algo assim ocorreria com os críticos do moralismo, porque é difícil ver nichos amorais se formando em qualquer parte, hehe. Aparentemente a única via para se chegar a posições assim, hoje, é a reflexão própria - consciente e racional, pois. Não há lobby contra O MORALISMO em parte alguma; não dessa forma generalizada. -
asked by GleysonNery
[Outra pergunta, anônima, feita sobre o mesmo tema:] se todos os átomos do nosso corpo simplesmente agem de acordo com as leis físicas como pode existir o livre arbítrio?
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Creio que a resposta da primeira questão talvez seja: "é possuir mente".
Apesar de todo o nosso conhecimento sobre como a matéria é determinística - ou, na melhor das hipóteses, aleatória - ainda nos percebemos completamente livres. Isto é, percebemos com plena clareza a disponibilidade de cursos alternativos de ação, dentre os quais nada nos impede de escolher um ou outro (o que é incompatível com o determinismo); e, além disso, nossa escolha não será arbitrária, mas fundada em razões (o que é incompatível com a aleatoriedade).
Parece uma atitude intelectualmente madura, a muitos, descartar tudo isto como mera ilusão. Não penso assim.
Se temos algo como livre-arbítrio, ele se origina na mente subjetiva. Pois bem: a mente subjetiva (consciência) é precisamente aquilo que sabemos com certeza existir, a despeito de ser completamente incompatível com o conhecimento científico atual. Dito de outro modo: tudo o que sabemos sobre física, química e biologia exclui a possibilidade de uma mente subjetiva e, no entanto, ela existe (essa afirmação é injustamente controversa - deveria ser ponto pacífico, rs). Obviamente estamos falhando em compreender alguma coisa fundamental na relação mente-corpo.
Meu ponto é: se a mente existe apesar de nossa melhor ciência prever o contrário, então não podemos excluir o livre-arbítrio (que seria mental) pela incompatibilidade com nossa melhor ciência.
Há talvez ainda mais esperança para o livre-arbítrio. Em geral se pensa que "determinismo" e "aleatoriedade" são as únicas possibilidades lógicas, e que uma terceira hipótese (algo como "liberdade") é completamente inconcebível. Talvez não. O traço mais distinto de nossa sensação de liberdade é justamente a deliberação fundada em razões. É pelo menos suspeito perceber que o processo racional, tomado *em si mesmo*, não é determinista e nem aleatório: para qualquer problema sobre o qual se raciocine, em geral há várias respostas igualmente boas (e. g., qual o zoom ideal para entender um endereço no Google Maps? Haverá toda uma faixa de zooms igualmente bons); e ainda que a escolha entre uma DESTAS respostas possa ser arbitrária (aleatória), o conjunto mesmo de boas respostas é estipulado com base em razões. No todo, o processo não é realmente determinista ou aleatório - e só passa a sê-lo se quisermos reduzir racionalidade à física do cérebro, o que é precisamente excluir o caráter mental que sabemos estar presente.
Uma aspiração minha, aliás, é dar uma forma argumentativa mais sólida e forte à (por hora mera) intuição de que, introspectivamente, *sabemos* que somos livres. O caminho, penso, é esse mesmo: ali estão as alternativas de ação, claramente disponíveis pra nós. Simplesmente vemos isso. -
kkkkkkkkkkkkk! Nenhum. Ando ocupado mesmo.
Mas cedo ou tarde apareço! ;D -
Não acredito que seja possível construir uma base moral. E ponto final. Tanto faz apelar para o metafísico, para Deus, para o relativismo, para a Teoria dos Jogos, para o prazer e dor individuais, para a razão... Nada funciona. Simplesmente nada justifica que alguém DEVA se prejudicar em favor de qualquer coisa, pessoa, grupo ou valor. A única razão para "se prejudicar" em favor de outra coisa é se, no fim das contas, o "prejuízo" for menor do que o bem-estar individual gerado. Como somos seres empáticos, e como a cooperação é mais lucrativa que o conflito, o egoísmo nesse sentido sofisticado é compatível com a compaixão, o amor e a bondade. Apenas é preciso reconhecer que tais coisas não são realmente altruístas, e sim boas tanto para o "beneficiador" quando para o "beneficiado".
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Não. Acreditei nisso, meio obsessivamente inclusive, até 2005 - quando procurei me informar sobre natureza humana e psicologia evolutiva. Todas as nossas emoções e instintos são biológicos - e isso inclui os sentimentos bons (gratidão, empatia, amor, amizade, lealdade, etc.) e os maus (vingança, inveja, raiva, orgulho, xenofobia, etc.). E cada pessoa possui uma constituição genética diferente, cujas tendências variam em certos aspectos: da timidez à extroversão, da calma à inquietude, da coragem à covardia, etc. E variam também os graus em que cada um é ciumento, amável, engraçado, medroso, caridoso, autoritário, etc.
Tais característas *mentais* variam geneticamente, e são hereditárias, exatamente como as características físicas: aspectos do rosto, cabelos, peso, altura, olhos, pele, força óssea, etc. Ou seja: algumas delas é possível melhorar ou mudar com muito esforço. Uma pessoa com tendência forte à obesidade pode ainda assim conseguir ser magra e esbelta (talvez ela tenha uma tendência forte à ter força de vontade, rs) - mas tem gente que é magra e esbelta sem fazer força. E o ambiente também conta: se a pessoa mora nos fundos de uma doceria, a tentação pra engordar aumenta. Com características mentais, incluindo aí as que nos tornam bons ou maus, é parecido. Tendências genéticas + esforço pessoal + ambiente vão decidir em que ponto nos equilibramos.
Ser solidário quanto se está feliz com a própria vida, por exemplo, é muito mais fácil do que quando está dando tudo errado. Nesse caso a tentação de priorizar a si mesmo em grau máximo aumenta. E assim vai.
Não somos naturalmente bons ou maus. Somos medíocres, rs. Se pensar no que poderíamos fazer de mau, em benefício próprio, somos até surpreendentemente bons (compare com a indiferença absoluta que reina no resto da natureza). Mas se pensar no que poderíamos fazer de bom (que tal abrir mão de um carro, ou de um vestido caríssimo, para tirar um estranho da miséria?), somos quase insuportavelmente desprezíveis.
Seja como for, vamos melhorando para os outros, conforme a realidade vai melhorando pra nós. Então, devagar, ao longo das gerações, tudo melhora - ou pelo menos melhoraria *em média*, se não fizéssemos questão de repor o contingente de miseráveis com sobra, através de dez filhos gerando dez netos cada, rs. -
Não. Embora o termo "conhecimento" dê margem a interpretações neste caso, acho justo dizer que já nascemos sabendo muita coisa - apesar de não ser nenhum conhecimento consciente e intelectual a princípio, é o que ele vai se tornar no decorrer da infância. Estou me referindo a todo tipo de conhecimento básico como noções intuitivas e elementares de física, matemática, reconhecimento de emoções nas expressões faciais, o aparato para dominar a linguagem com facilidade, etc. Por exemplo, de certa maneira as crianças já sabem, sem que se precise ensiná-las, os padrões gramaticais básicos da linguagem (que são comuns a todos os idiomas, diga-se).
Mas qualquer conhecimento mais elaborado e específico, seja sobre fazer coisas ou compreender certos temas, se origina da cultura - isto é, das técnicas e descobertas acumuladas ao longo das gerações. -
Sem dúvida porque a moda moralista é contra o nazismo, não contra o stalinismo, rs. É impressionante como se odeia Hitler ao passo que praticamente se homenageia Alexandre, o Grande. Esse tipo de coisa me mostra como a moralidade, pelo menos na prática, é completamente estúpida. Mas não que ser nazista, stalinista ou "alexandrista" não seja obtuso e idiota. Particularmente, acho uma desgraça estar num mundo em que figuras desse tipo é que são consideradas historicamente importantes - e isso por um estrato relativamente sofisticado e pequeno da população (a maioria sequer conhece história). Todos os governantes, tiranos e políticos não tiveram mais impacto, no mundo atual, do que Arquimedes sozinho - pra ficar num exemplo. Mas, de algum modo, destruir lugares e populações é considerado mais relevante do que produzir ciência e tecnologia.
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Porque a matemática é alheia demais aos problemas que nossa espécie enfrentou no passado. Humanos e mamíferos, em estado selvagem, possuem conhecimento matemático apenas até onde é necessário para os problemas práticos - e isso em geral significa saber a diferença entre muitos e poucos, entre um e dois, e só.
Isso em nível consciente, claro. Não deixa de ser interessante lembrar que, por exemplo, a visão dos mamíferos e mesmo insetos reconstrói, das imagens meramente bidimensionais que chegam às retinas, a tridimensionalidade do mundo. E faz isso através de trigonometria sobre as pequenas diferenças na imagem de cada olho.
Mesmo hoje, num mundo de trocas comerciais, horários e todo tipo de detalhes numéricos, a maior parte da matemática continua sendo incrivelmente alheia a quaisquer objetivos práticos. Se conseguimos entendê-la ainda assim, é porque se trata apenas de mais do mesmo: inferências lógicas acumuladas. Por gerações a fio! O resultado do montante pode parecer bizarro e surreal (geometrias não-euclidianas, por exemplo), mas é tudo feito do mesmo cimento simples e inevitável de "2 + 2 = 4". Como diz Winston, em 1984, "admitido isto, tudo o mais decorre". -
Porque funciona e, no contexto da evolução de nossa espécie, esteve "ao alcance" da seleção natural. Obviamente até insetos e criaturas ainda mais simples exibem algum grau de comportamento lógico, em face de seus objetivos básicos. Isso é de se esperar, pois se fossem ilógicos fracassariam. Mas eu disse "comportamento lógico" pra ser cauteloso, pois é difícil dizer se insetos possuem consciência e, caso possuam, se raciocinam efetivamente - embora, se não estou confuso demais, acho que certos experimentos indicaram algum grau de raciocínio elementar por parte de moscas ou abelhas.
É difícil dizer, em nossa espécie, ou que foi causa e o que foi consequência de nosso raciocínio avançado. A linguagem, por exemplo: ela mais permite o raciocínio avançado, ou mais depende dele para surgir? Seja como for, de algum modo o estilo cada vez mais social de nossa espécie deve ter papel crucial aqui. E como a sobrevivência passava cada vez mais a depender de cooperação grupal, a capacidade para estratégias deve ter sido selecionada. Isso é óbvio entre chimpanzés e outros primatas, por exemplo.
Mas isto são especificidades. A razão básica de a lógica impregnar mente e comportamento de diversos seres vivos é que ela, por necessidade, é o que funciona. -
Biológicas, em nossa espécie, são as capacidades básicas para a linguagem falada (incluindo uma gramática universal inata) e o raciocínio lógico sofisticado - razão pela qual fracassará tentar ensinar animais a lerem ou entenderem matemática, embora não sem algum pequeno grau de sucesso, sobretudo para certos primatas.
O aprendizado da leitura e da matemática são como o aprender a tocar pianos, dirigir ou costurar: habilidades relativamente simples, se comparadas com coisas que fazemos naturalmente e sem esforço (como andar e falar), mas que nos demandam muito treino e prática contínuas, pra comparativamente pouco resultado, precisamente porque não estamos biologicamente preparados pra elas. Num sentido óbvio, são aquisições culturais, informações e práticas que dependeram do acúmulo de esforços ao longo da história. Mas até aí, para aprender tais coisas, pesa mais a capacidade individual inata de adquirir informações, sistematizá-las e se acostumar com padrões. Seja lá o que a cultura "faz conosco", a esse respeito, não consegue fazer com outros animais. Então nossa biologia é claramente crucial. -
Existe. É talvez a maior das certezas, de cada um sobre si próprio. Qualquer entidade sem mente não poderia, é claro, se enganar sobre ter mente - é preciso ter mente para poder se enganar sobre algo.
Recomendo alguns livros:
- A Redescoberta da Mente (John Searle)
- Consciência & Linguagem (John Searle)
- Visão a Partir de Lugar Nenhum (Thomas Nagel)
- Brainstormos (Daniel Dennett)
- Matéria e Consciência (Paul Churchland)
- Como a Mente Funciona (Steven Pinker)
* sobretudo o subcapítulo "A Lâmpada de Aladim" e as considerações finais do livro.
Aqui há uma lista de textos ótimos:
http://www.filosofiadamente.org/content/blogcategory/14/15/
Recomendo especialmente "O Fisicalismo", de Nagel e o alucinante "Onde Estou Eu?" de Dennett. E também este http://criticanarede.com/men_morcego.html e o resto da seção ótima da Crítica: http://criticanarede.com/mente.html .
Também recomendo meu texto:
http://www.suasticazul.hbe.com.br/filosofia/redescobertadamente.html
;)
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Paralelo (Lauro Edison)’s Bio
Outsider Legítimo ®




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