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De vez em quando. E quando estou escrevendo sobre a música ou sendo inspirado, ou seja, roubando imagens e ideias, geralmente de Tom Waits, Nick Cave e Elvis Costello. Raramente, Lou Reed e Tom Petty.
Quando preciso me concentrar, ouço antes, geralmente Bach ou Beethoven. Às vezes ouço música depois. Acho que se você se dedica a ouvir música com atenção, como se deve ouvir, o efeito é parecido com o de jogar Doom ou Quake antes de escrever não ficção, são para mim jogos que favorecem a reflexão e o ensaio.
Música me ajuda a me concentrar durante a edição e às vezes em revisão.
Acho que passagens inteiras do "Quero dançar até as vacas voltarem do pasto" (http://editoradraco.com/2012/03/07/quero-dancar-ate-as-vacas-voltarem-do-pasto-marcelo-ferlin-assami-2/) form inspiradas por New Order/Joy Division, Pet Shop Boys e o New York do Lou Reed, que é citado no livro. Estudei as letras, mas não ouvia durante a escrita.
Tenho ouvido muito o cover da Anne Lennox para "No more I love yous" e talvez saia uma história grande daí, talvez um romance. Fui ouvir pela primeira vez a original do Lover Speaks (http://www.youtube.com/watch?v=xgwnXp1Zb4Q) e levei alguns sustos. -
O difícil foi resistir à vontade de ficcionalizar o passado. Mas neste sentido, de que você consegue recriar uma época inteira em poucas linhas, dizendo por exemplo que "naquela época íamos à fazenda e meu pai dirigia a camionete do meu tio". Isso é falsificar o passado, porque toma eventos como se fossem processos contínuos. Você ia uma, duas vezes por mês à fazenda, mas descreve como se fosse algo dado, algo que fizesse sempre, quando na verdade a vida é vivida no presente, em ato.
Além de ser eficiente como recurso, é estético, sedutor: "era no tempo do rei". Eu queria reduzir ao mínimo o uso desse tipo de construção. E queria saber o efeito disso na narrativa. A partir de que momento você leitor percebe que há algo diferente.
E queria saber o efeito de ocorrências mínimas, como no meio deste trecho, numa fala, sem a intenção de recriar uma sensação de "época":
"E eram crianças loucas. Falemos de outras coisas. Das coisas que as crianças falavam. Porque não chovia muito naquele tempo. E se podia andar na chuva. Faz tempo que não
ouço a chuva. As crianças falavam dos animais." -
Ambos. Gosto de como Mutarelli cria texturas, o modo como ele não separa as próprias referências no texto. E também sou fascinado com a abordagem do Miller de "vamos incluir até a pia da cozinha neste roteiro". São artistas que fazem isso também nos desenhos, como nos fundos de Desgraçados, Transubstanciação e a trilogia do Diomedes e nos fundos de Holy Terror. São formas de narrar que me fascinam, a ideia de que storytelling não é só storytelling.
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Não guardo. Contos e textos que escrevo praticamente de uma vez, transcrevo para o computador. Às vezes eu não mudo nada, então o original, que seria um caderno ou uma caderneta, é desnecessário. E dos textos maiores, acabo editando e revisando tanto que no final pouco se parecem com o original, e não vejo sentido em mantê-los. Então evito guardar. Até porque também escrevo diretamente no computador, e mesmo os arquivos originais acabam indo para o lixo depois que a versão final está pronta.
Tenho material espalhado por cadernos, folhas de papel e cadernetas, às vezes frases e ideias e às vezes contos e mesmo pedaços de capítulos, algumas coisas são muito antigas, do tempo da faculdade, então acabo guardando cadernos que guardam originais.
Minhas duas primeiras histórias longas, que talvez nunca publique, existem sem os originais. Estão perdidos por aí, no mundo. Mas guardo a primeira história na cabeça e talvez reescreva um dia, melhor e maior. A segunda eu comecei a digitar de novo. Descobri que uma amiga tinha uma última versão impressa e decidi digitar e pretendo editar na sequência. Perdi os arquivos originais das duas em HDs queimados. -
Acho poema superior ao romance, seja por preconceito, por não conseguir ainda escrever bons poemas ou mesmo pela hipótese de que poemas são mais concisos, enquanto se pode cortar muito de cada romance. Mas, vivemos na História. Meus motivos vêm de longe.
Meu primeiro ponto é nunca se esquecer de que a cultura é o mais reacionário dos meios. Até mesmo por ser invisível, por sua forma só se revelar pelos efeitos. Você tem de olhar de longe ou de muito perto.
O segundo ponto é que guerras culturais só matam na emboscada. Ou mandam poetas servirem como soldados ou matam potências e caminhos (como a fotografia enterrando carreiras de pintores), mas raramente você vê choques mortais entre artistas ou entre artistas (e não um ou um grupo) e outros atores sociais. É mais fácil ver um partido ou um governo esmagar indivíduos e grupos. O que importa é que não basta eu querer tornar relevante o poema sem olhar em volta.
Terceiro ponto, o passado imediato. O século XIX viveu uma mentalidade de império (saques e museologia) cuja expressão maior foi o Império Britânico. Como resultado, muito das técnicas poéticas foram reunidas e um corpus de teoria e prática se formou.
Ao mesmo tempo, viveu-se a impressão de que a arte cabia no museu. Portanto, a arte não era necessariamente artística nas ruas. E por efeito, arte se tornou reconhecível com um label: aquilo que me encanta; aquilo que penduram na parede; aquilo que o crítico diz que é arte; aquilo que os jornais advogam como tendência; aquilo que eu não compreendo; aquilo que choca a burguesia; aquilo que recebe grant do governo e tomate de certos colunistas.
Ou seja, arte como reflexão e como reconhecimento e não como o fazer cotidiano.
Em contrapartida, muito da arte, como corpus de prática, foi usada no maior empreendimento poético do presente, a publicidade e a propaganda. O seu querido Frye fala disso no “Anatomy of Criticism”.
Todos os tropos e todas as técnicas do poema servem para a música pop esvaziadora, porque indistinta do slogan do feirante e do político, e servem para a arte de vender linguiça e sabão em pó.
Tendo tudo isso em mente, posso dizer que a prosa e o romance e o conto são objetos que ainda atrasam a devassa dos técnicos. No romance eu posso testar o que funciona poeticamente. E faço isso enquanto não encontro modo de pelo poema resgatar a cultura do poema.
James Joyce não foi muito longe com seus poemas. Stephen Dedalus diz sua ambição: “to forge in the smithy of my soul the uncreated conscience of my race”.
Imagino que a situação data de muito de antes do tempo de Joyce e de antes dos vitorianos, que foram só os museólogos, naturalistas e cientistas do império. No momento, enquanto a letra (morta) da constituição toma a família como célula da sociedade, tudo o mais e incluímos aí governo e legislativo, faz de tudo para favorecer a nova célula, o indivíduo, a unidade de fato da sociedade. Não é por nada que se vende autoajuda para pessoas em vez de casas ou gerações e se busca liberar o aborto.
Não disponho de família ou governo do meu lado. E dada a situação centrada no indivíduo, inclusive para destruí-lo, sozinho eu não vou longe. Some os pontos 1, 2 e 3 e verá que em vez de me matar ou de publicar lixo, fui levado para a prosa. E também aprecio Malcolm Lowry.
Para ter poemas não é preciso antes ter prosa. O verso nasce antes, assim como o wit e o aforisma brotam só de você fechar os olhos ou a mais simples observação bucólica. Mas para acolher uma estrutura poética e para que mais e mais floresçam, aqueles que não vão virar cantores pop nem publicitários, precisam de invólucros de prosa.
Voltando ao ponto 2. Então há uma idealização de minha parte de que para tornar relevante um objeto eu espero que pessoas se matem por isso? Acho que há. Uma grande idealização, mas uma aceitação cínica e prática. Se a forma não volta e se não serei capaz de trazê-la de volta ou, como é idealização, erguê-la à altura que idealizo, posso me voltar para a prosa.
Noto que a morte do poema é mote comum das fantasias em prosa, que fazem elegias do feitiço ou do encantamento, das palavras encantadas que matam e que fazem viver. Dois poemas simples: Avada kedavra e Talita cumi. Há uma circularidade nesse movimento editorial. Outros idealistas encontraram um recanto. -
Não li ainda. Tentei algumas vezes, achei cansativo, não comprei. Vou continuar tentando.
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Kadath in the cold waste.
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/6b/ASTER_Richat.jpg/635px-ASTER_Richat.jpg -
Perguntar que é bom, nada. Respondo com o clássico: Nabokov não vai nada.
Felizão aqui. A Lua de Hayek contém muito do que acredito em política, mas não tem uma linha sobre política.
http://editoradraco.com/2013/03/22/a-lua-de-hayek-marcelo-ferlin-assami/ -
No comento, conferir meu e-conto publicado pela Draco: A Lua de Hayek.
http://editoradraco.com/2013/03/22/a-lua-de-hayek-marcelo-ferlin-assami/
Olha que capa linda.
E já tem na Amazon: http://www.amazon.com/lua-Hayek-Portuguese-Edition-ebook/dp/B00BYCN6QI/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1364053061&sr=8-1&keywords=marcelo+ferlin+assami -
Ai, creuza.
"Perhaps the term 'Central Committee' is a synonym for Beast." -
Olá. Nunca pensei numa versão cinematográfica do “Quero dançar até as vacas voltarem do pasto”. Daí fiquei sonhando com um musical. Ou com uma versão x-rated (Fetish Diva Midori, Stoya, Larkin Love, Sasha Grey, Dita von Teese, Maya, Tristan Taormino).
Não posso exigir direção do Walter Hugo Khouri para a versão brasileira, mas faria lobby por Erika Mader, em qualquer papel.
Uma para versão Hollywood sem Michael Clarke Duncan? Não sinto firmeza em Laurence Fishburne e já faz um tempo que o Forest Whitaker de uma emagrecida. Eu chamaria Hale Berry, Taraji P. Henson, Rosario Dawson e Thandie Newton. E Jada Pinkett. E Zoe Saldana. Não faço ideia de quem faria a oriental. (Kristin Kreuk e Qi Shu são velhas demais.)
Não sei como seria feito o Mugwump (que aparece na página 57 do meu livro e na 72), será que há tecnologia para ser digital? Mas eu gostei da versão do Cronenberg.
Na falta do Michael Clarke Duncan, Linda Fiorentino, com a devida licença poética. -
Acompanham à distância. Há gente iletrada na minha família e gente que não lê. Sou neto de imigrantes, um lado da família era esfomeado e o outro, remediado. São pessoas que conseguiram com as próprias mãos e na raça o pouco que têm. (Um dos meus avôs teve de abrir uma clareira no meio do mato para construir a casa, como os outros imigrantes que foram para o mesmo lugar. Mas ele mantinha uma biblioteca considerável.) O relacionamento da maioria com o livro, incluindo os que leem, é instrumental, livro é para ficar inteligente e instruído, e até se distrair, e a relação com o autor de livros é simbólica, se você publica livro você é inteligente e culto, conteúdo passa longe. Isso é normal, é natural que seja assim. Você não só recebe os valores da geração anterior, mas aproveita o conforto que conseguiram para você, então a sua realização num campo que foge ao trabalho e à construção de riqueza não é boemia, ou apenas boemia, mas a realização de promessas represadas das gerações anteriores. Meu pai e minha mãe têm sensibilidades artísticas, como meus avôs tiveram, e alguns dotes, e não tiveram oportunidade ou preferiram não desenvolver, mas estudaram, o que uma parte dos meus avós não puderam fazer.
Sobre os amigos, eles já me aturam o suficiente. Mas tenho colegas e amigos que escrevem, mas é a amizade vem antes ou ocupa outra esfera. Então é mais fácil reunir dois para falar mal do texto de um terceiro que trocar elogios entre as respectivas escritas. E desse ponto não há por que um analisar o texto do outro. E há as amizades que surgiram porque um foi procurar o outro para falar de literatura ou de escrita, nem assim eu tenho por que importunar as pessoas. -
It's surrounded by secrets.
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Obrigado. Referências, citações e explicações do autor não deveriam substituir a experiência da leitura, então eu tento policiar os meus spoilers. (Falando nisso: "John Dies at the End".)
Um amigo disse que nas últimas vinte páginas tudo começou a se encaixar e fazer muito sentido. Infelizmente, ele não disse em que ordem estava lendo o livro nem quais eram as vinte páginas que deixou para o fim. Você pode se arriscar e tentar ler primeiro as últimas vinte páginas do livro. Talvez não funcione. Talvez não importe a ordem e o livro só forneça as conexões que você procura quando já estiver no final da leitura.
Há um esforço do autor para que o “Quero dançar até as vacas voltarem do pasto” mantivesse a mesma densidade por todas as páginas. Eu me entedio com facilidade e não gosto quando no meio do livro aparece a sensação de “já entendi a história e sei o que vai acontecer até o final”. Também não gosto de histórias de mistério ou de histórias que emulam mistérios, como investigações sobre segredos de família, em que você só precisa ler parte do começo e ir direto para o final para entender tudo.
E também queria que o livro fosse fácil de ser lido e que você pudesse entrar em qualquer parte e seguir lendo. É fácil de entrar, mas talvez seja difícil de sair. Não demando corpo a corpo do leitor, mas sei que a estrutura se aproveita da capacidade ou do limite de se guardar informações na cabeça durante a leitura.
Siga lendo e me conte tudo quando terminar. -
So many memories. A white refrigerated Sadia lorry. A small plastic grey bull. A sassy and smiling rubber cow. The mounted figure of a cavalry soldier, in blue plastic, he used to hold a saber, maybe from Wild West playsets or from Indians x Calvary playsets. A bunch of plastic medieval fighters that I can't find anywhere anymore not even tracking antique toy shops. (They have disappeared from Earth. Maybe their molds have disappeared.) And a Cliffjumper TF minicar.
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De novo?
Eu cresci nos anos 80, quando a música pop decidiu fazer um reboot a cada semana e a moda dos cult-movies entrou na pauta dos jornalistas e virou modinha e febre geral. Cresci assombrado e fascinado por filmes cult. Para mim, eram filmes que se aproximavam da música pop, da capacidade de uma música de 4 minutos de capturar uma série de imagens da sua vida e ao mesmo tempo projetar uma série de imagens poéticas que encontravam correspondência em você. O filme cult era a versão audiovisual desse fenômeno poético. Acho que eu não preciso relembrar mais uma vez que cult vem de culto, o ato de cultuar e não cultivado, “para sabidos”.
Diretores cultuados como Jim Jarmusch e Wim Wenders pareciam muito conscientes do que faziam. E trabalhavam com músicos. Estética videoclipe sempre soou pejorativo, mas era o que faziam.
Wenders fez “Asas do Desejo”, um filme que virou cult imediato e até hoje é muito querido pelas pessoas mais velhas que eu. De um modo genial, ele pegou o sentido do cinéfilo, o voyeurismo consentido, e o tornou fetiche: os anjos como voyeurs da humanidade e os cinéfilos como anjos. Simplesmente genial.
Então vieram as rachaduras no mundo polarizado e logo caía o muro de Berlin. Como obra, “Asas do Desejo” não precisa do “Tão longe, tão perto”, mas acho este um filme necessário, e uma sequência natural. Wenders parece responder à questão do tempo, no caso, ao sentimento de “cansaço do tempo”. A queda do muro, a reunificação da Alemanha e a movimentação rápida para a criação da Comunidade Europeia são eventos de um primeiro momento não violento na Europa. Não é incrível? Um movimento coletivo europeu e sem violência, qual foi o último século a ver isso?
A trilogia das cores, do Krzysztof Kieślowski, também lida com o momento histórico e o cansaço do tempo, mas de modo mais preso ao mundo oficial, tentando lidar por dentro da Europa oficial com a existência entre duas Europas, a dos burocratas e festivais e patronos e instituições e a do povo real, que tem de viver a História, e que vive o “cansaço do tempo”.
Anos depois, Cees Nooteboom fez a versão dele, o “Dia de Finados”, um livro fantástico. E uma solução.
Só que eu não tinha ainda Nooteboom. Não sou músico, mas tinha feito algumas letras ridículas; não entendia nada de cinema, mas tinha brincado com VHS com os amigos; eu não tinha um meio de expressão pronto, e na escrita não havia ninguém vivo no Brasil que pudesse me apontar um caminho. Porque havia um distanciamento da literatura brasileira, eu tinha autores infantis e juvenis que não iam me levar adiante e tinha autores, da literatura adulta, que pareciam perdidos, de outro tempo ou de outro mundo. Dos três grandes best-sellers colegiais do meu tempo, aqueles que todo mundo lia por si, em silêncio, mas devia ler (“Olga”, “Diário de um mago”, de quando Paulo Coelho não era conhecido, e “Feliz Ano Velho”), nenhum me dizia nada, nenhum falava comigo, e não consegui ler nenhum até o fim.
Não que “cansaço do tempo” fosse um tema meu ou de algo que eu quisesse expressar. Mas a compreensão de viver um momento da História e ao mesmo tempo a apreensão de que era só um momento, que essa História era vazia de sentido era um facho violento apontando para a estranha poética do pop e dos filmes cult. Mesmo que você não tivesse o que expressar, existia a questão da língua. Algumas pessoas, artistas, tem uma língua, que é a nossa língua, mas nós ainda não temos domínio dessa língua nem acesso. Tudo isso parece interligado, mas falar disso é confuso. Deve ser esse pressuposto do meu tempo de tomar a poesia como parte, e, portanto, luxo ou supérfluo ou destilação, e não como efeito natural e parte integrante da língua que você adquire.
Eu vi trechos do “Verde Violentou o Muro”, do Ignácio de Loyola Brandão, na revista “Chiclete com Banana”, mas o autor era já de outro mundo. Eu não entendia então o efeito da ditadura, de ter rompido de verdade a conversação entre as gerações de autores e de leitores. Se você olhar para “Olga”, “Diário de um mago” e “Feliz ano velho” verá que o universo desses livros não é o da minha geração, está num outro projeto, outro mundo, mas as pessoas da minha idade leram como se fossem atualidades. (E não como você lê Balzac ou Plutarco ou Camus.)
Na mesma “Chiclete com Banana” havia o Edi Campana do próprio Angeli, mas o que o Campana me falava era o que eu aprendia e as coisas que ele não sabia, eu também não sabia. Porque se você vem da “working class”, a sua compreensão da História é fragmentada. Metade vem da escola e da TV e dos jornais e revistas, metade vem de anedotas familiares e da visão de mundo da família. A História é: caravelas, índios e jesuítas, capitanias, escravos, Tiradentes, bandeirantes, Vargas, Jânio Quadros, ditadura, urbanização dos anos 70, sua família se instalando em São Paulo, você na escola pública. Angeli, Glauco e Laerte me deram um vocabulário brasileiro. (Aqui você pode encaixar a resposta anterior a essa pergunta.)
A única via que encontrei foi por obra de Maria Eugênia Boaventura. Com gente como Haroldo Maranhão e Haroldo de Campos, ela organizou uma edição excelente das obras do Oswald de Andrade, que saíram pela primeira vez em 1990, pela editora Globo, que começou a republicar os volumes em meados dos anos 2000, acho que a partir de 2007. Eu havia lido o “Serafim Ponte Grande” e o “Memórias Sentimentais de João Miramar”, mais dois volumes da trilogia do exílio, alguma coisa do teatro e do Marco Zero, os poemas e outros textos dos outros volumes. A biblioteca da minha cidade tinha recebido essa coleção. E também havia edições antigas dos livros do Oswald de Andrade.
E quando decidi escrever, Oswald de Andrade foi o único escritor brasileiro que encontrei que podia me oferecer alguma perspectiva. Então se você ler meus contos publicados e mais o “Quero dançar até as vacas voltarem do pasto” e achar que não estou conversando com nenhum escritor nacional, essa impressão é parcialmente falsa, é preciso recuar 70 anos.
Mas se você vai procurar a influência, é preciso entender o que você que quer dizer com influência. A compreensão do romance como espaço burguês está lá no “Quero dançar”, mas isso não vem do Oswald, sendo convenção anterior.
Mas é oswaldiana a composição burguesa quanto à sexualidade dos personagens, para ficar num exemplo menor, sem spoilers, e ao mesmo tempo vender meu livro. “Fanchono. Oportunista e revoltoso. Conservador e sexual”, como escreveu Oswald num dos dois prefácios do Serafim. (O burguês de Oswald podia ser chegado, mas não desmunhecava, relação que ia aparecer no teatro francês e ia seguir moda até os anos 70, ainda não esgotada no Brasil, do Fassbender e do Pasolini. O Brasil precisaria de desbunde, e besteirol, com o primeiro resistindo na caricatura de si mesmo do José Celso Martinez Corrêa.) A sexualidade dos personagens não é questionada, são mesmo aqueles monstros polimorfos e perversos ou a sugestão deles, mas não há discurso sobre isso nem dos personagens nem dos narradores. É difícil ser mais claro, exatamente porque é preciso ler o livro, não quero dar exemplos que dispensem o leitor de examinar o livro para poder falar dele. -
One lion from Haile Selassie' lineage.
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Marcelo Ferlin Assami’s Bio
SP
Nudismo, oniromancia, letras bonitas
marceloferlin@gmail.com
A Draco publicou o meu livro: “Quero dançar até as vacas voltarem do pasto”:http://editoradraco.com/2012/03/07/quero-dancar-ate-as-vacas-voltarem-do-pasto-marcelo-ferlin-assami/.


