
Idelber, em que medida a sua concepção política se distancia da posição de Celso Rocha de Barros? Celso seria um petista demasiadamente moderado para vc?
Eu e Celso concordaríamos que somos ambos de esquerda, ambos do campo petista, eu alguns metros à esquerda dele. As diferenças que existem são menos importantes que a enorme admiração que tenho pelo blog dele, que deu um baita salto nestes últimos tempos, tanto em qualidade como em impacto. Era um dos únicos blogs que eu lia religiosamente durante a hibernação do Biscoito.
Claro que há algumas diferenças. Eu jamais diria, por exemplo, que Merval Pereira vale a pena ser lido. Não acredito que a diferença entre o governo FHC e o governo Lula seja somente no grau de aplicação de um marco, de uma fórmula que seria fundamentalmente a mesma (OK, aqui é provável que eu esteja colocando palavras na boca do Celso; o ponto é que eu vejo uma cisão mais profunda entre a forma como o Brasil foi administrado entre 1995 e 2002 e entre 2003 e 2010). A compreensão da mídia também é um pouco diferente. Para mim, a atividade do grosso da mídia brasileira é algo da ordem da bandidagem semiletrada, mesmo, da pura e simples formação de quadrilha sob um regime de legalidade. São termos que o Celso jamais usaria.
A maior diferença que vejo é na compreensão da política de alianças. Eu sou crítico radical do que chamo de GABEIRISMO LIGHT, que pra mim é uma força política a ser combatida (não "extirpada" ou "eliminada", mas combatida no campo das ideias). Ateu até a medula, prefiro me aliar ao evangelismo neolulista que ao gabeirismo light. É uma questão de classe, mesmo, que tem a ver com a forma como vejo a radical revisão do populismo realizada pelo gênio político do Sapo Barbudo. O Celso certamente discorda de mim nisso. Ele conversa muito melhor com o gabeirismo do que eu. Eu converso melhor, acredito, com o Psol do que ele.
Não gosto muito de usar essa formulação, "fulano é demasiadamente moderado para mim", quando se trata de caracterizar aliados. Quando eu hibernei o blog, o Celso disse uma coisa muito bacana sobre mim, citando o Tyler Cowen: ele dizia que os caras mais moderados pegam carona nos marcos estabelecidos pelo pessoal mais radical à direita e à esquerda. Você dar a volta nisso (e isto não é simplesmente uma retribuição de gentileza) e dizer também que a esquerda e a direita que se tornam realmente relevantes são aquelas que conseguem dialogar e ser legíveis para o pessoal mais moderado. Em outras palavras: é importante que existam as duas coisas, o Biscoito e o NPTO.
Há que se estar, evidentemente, atento às armadilhas pressupostas na cristalização de posições. Durante certo tempo, eu fui associado ao "combate à mídia" e aí tive que fazer certos gestos para me diferenciar daquele pessoal da esquerda que vê uma mídia maquiavélica, onipotente e homogênea. A armadilha para ele é outra, e ele, inteligente pra caralho, com certeza já sacou: a cristalização de um lugar reservado para ele como a "voz moderada da esquerda", que também pode levar à paralização do pensamento, à complacência de uma falsa equidistância, a ruptura pura e simples dos vínculos com a esquerda. Nesse sentido, o que aconteceu com o blog do Alon, por exemplo, é instrutivo, e certamente o Celso está atento a isso.

