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Salve, Moysés, desculpe a demora. Então, em primeiro lugar eu deveria dizer que não estou em condições de analisar o trabalho dos analíticos dentro daquilo que eles se propõem a fazer. Simplesmente não acompanho a produção o suficiente. A única área em que eu poderia opinar seria do trabalho deles sobre ética, que me parece deixar muito, muito a desejar. Aqui eu acho que posso dizer algo, porque vasculhei bem a bibliografia quando escrevi "The Letter of Violence".
Quando discutem ética, os analíticos sistematicamente cometem o que é, para mim, o pior pecado nesse tema: evacuam a situação ética de todas as relações de poder que a informam, tratam a linguagem como um mero instrumento de comunicação (sem atentar por exemplo, para a violência embutida na própria linguagem) e transformam o encontro ético numa espécie de joguinho combinatório onde as variáveis são assépticas e neutras. E intercalam isso com reclamações de que a filosofia continental está afastada do "mundo real'!
No caso do tratamento que eles dispensam a toda a tradição filosófica que vai de Hegel a Derrida e mais além (com a única exceção de Wittgenstein), a coisa chega a ser patética. No caso dos EUA, o que aconteceu, acredito eu, tem bastante a ver com uma certa percepção deles de que perderam espaço para os Departamentos de Literatura. Explico. Durante toda a segunda metade do século XX, o controle deles sobre o establishment da filosofia nos EUA foi quase absoluto. Se um doutorando quisesse pesquisar, por exemplo, Heidegger ou Derrida, ele seria barrado com o argumento "isto não é filosofia" (aliás, quer postura mais antifilosófica que essa?).
Pois bem, a partir, especialmente, de um colóquio na Johns Hopkins em 1966 (em que estiveram presentes, entre outros, Derrida, Lacan e Barthes, e no qual Derrida apresentou pela primeira vez o célebre "Estrutura, Signo e Jogo nas Ciências Humanas"), a coleção de heterogêneas reflexões francesas chamadas, por falta de melhor nome, de "pós-estruturalismo", chega aos EUA com força, mas passando completamente ao largo dos Departamentos de Filosofia. Os Departamentos de Literatura Comparada, antropologia e, em menor medida, de francês e espanhol, passariam a ser os agentes principais dessa entrada.
Aí o ressentimento aflora de vez entre os analíticos, porque uma série de doutorandos brilhantes, que gostariam de trabalhar temas ligados à tradição continental e se viam impedidos de fazê-lo nos Depts. de Filosofia, começam a transitar para a literatura e também para a antropologia. Aí os comentários passam a ser cada vez mais virulentos -- não há dúvida de que esses comentários têm a ver com uma perda de capital cultural dos Depts. de Filosofia nesse contexto. A situação melhorou um pouco em algumas instituições, mas o establishment filósofico dos EUA ainda me parece bastante autista. -
Tá maluco? O homem era TUDO.
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Esse é foda. O que eu faço quando ele pinta é criar um sintagma separado:
"Eduardo Viveiros de Castro is arguably the greatest Brazilian anthropologist".
"EVC é, se poderia argumentar, o maior antropólogo brasileiro."
Duas vírgulas e "se poderia argumentar". É o mais exato, me parece. -
Sou totalmente contra. Isso só serve a interesses de oligarquias regionais.
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Que bobagem! Não tenho ódio do Flamengo. Zicão foi gênio, eu sempre disse isso. Mas Seleção do MUNDO de TODOS os tempos? Na camisa 10, aquela de Pelé, Di Stéfano, Puskas e Maradona? Senso de perspectiva, né meu caro. Reinaldo também não entrou. E era do Galo. E jogou numa posição (a 9), em que a concorrência é menor que na do Zico. Tanto que não escalei nenhum centroavante legítimo na minha seleção, pra dar espaço para outros pontas-de-lança geniais. Abraço.
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De basquete eu não tenho condições. Futebol: Yashin, Carlos Alberto, Figueroa, Beckenbauer e Nilton Santos; Cruyff, Di Stéfano e Puskas; Garrincha, Pelé e Maradona.
Alguns estão fora de posição, claro. Mas creio que não teriam dificuldades de se virar :) -
OK, eu vou te responder mais uma porque você voltou com bom humor e educação :) Eu militei na DS entre 1983 e 1988. Em 1990 eu já não era filiado ao PT. Lá se vão, portanto, 21 anos. Não sinto a menor de obrigação de seguir diretriz partidária. Critiquei o PT publicamente um montão de vezes: em 1998, quando apoiou Garotinho, em 2005, no caso mensalão, em 2008, quando apoiou Lacerda em BH etc. A lista é enorme. Acho, sim, a DS uma corrente muito lúcida. Mas tampouco tenho nenhum compromisso de concordar com eles sempre. Outro dia, por exemplo, cobrei no Twitter publicamente que eles se posicionassem sobre Belo Monte. O que vai ser bem difícil de eles fazerem, porque estão no Ministério, e no do Desenvolvimento Agrário, ainda por cima.
Em outras palavras: cobre-me coerência comigo mesmo. Se encontrar desajuste entre o que eu disse aqui e o que eu disse acolá, pode cobrar. Se houver diferença temporal entre uma afirmativa e outra, e eu tiver mudado de opinião, eu lhe direi honestamente: "entre o aqui e o acolá eu mudei de ideia". Só burros não mudam, e é impossível pensar e escrever sobre política, com a própria cabeça, durante quase 30 anos sem mudar. Mas sem essa de "você disse tal coisa e o PT fez tal coisa". Aí não. Aí você vá lá e cobre do Zé Dutra, do Rui Falcão, são eles que respondem pelo PT.
Beleza? Abração. -
Também não sou militante do PT. Milhões de pessoas fizeram campanha pra Dilma ano passado. Ela teve 55,7 milhões de votos, sabia? Dê uma conferida nos meus textos sobre política com mais calma. Está afirmado lá, várias vezes, que não sou nem filiado nem militante do PT. Tchau e boa sorte.
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Uai, aí você teria que perguntar isso a algum dirigente do PT ou pelo menos a alguém que é filiado ao partido. Eu respondo pelo que digo, não pelo que o PT faz.
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Eu teria que dizer o Lulão. Superou todos os preconceitos, todas as agressões, todos os desaforos, com uma das qualidades que eu mais admiro num ser humano, que é a ausência de ressentimento. Não é só o fato do cabra ser um gênio da política. Existiram outros gênios da política. Mas ele conseguiu sê-lo sem perder o vínculo com a alma do Brasil. Isso é pra muito poucos. Sobre essa questão, há um belo texto do Professor Luiz Antonio Simas, intitulado "Tá na hora da Janta":
http://hisbrasileiras.blogspot.com/2010/10/ta-na-hora-da-janta.html -
Gosto musical eclético, relação super intensa com a música desde sempre, embora eu escute música bem menos do que possa parecer às vezes, já escrevo tanto sobre ela. Não ouço música ao navegar, nem ao escrever, nem ao comer. Em geral, ouço muito intensamente uns poucos fonogramas durante bastante tempo. E aí vou passando pra outros. Mas fico longos períodos sem ouvir música nenhuma.
Comecei com o pós-punk dos anos 70-80. Durante muito tempo só ouvi música de Manchester: Joy Division, New Order, Buzzcocks, The Fall, The Smiths.
Daí esses me levaram pras suas influências, que é até hoje o rock que eu mais ouço: Velvet Underground, em primeiríssimo lugar, e depois Talking Heads, Patti Smith, David Bowie, Television, The Stooges, MC5.
Nessa época, de música brasileira eu só ouvia a vanguarda paulistana: Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Fellini. Além de Raul Seixas, Novos Baianos, Zé Ramalho, que eram as figuras da música brasileira popular mais tradicional que a gente respeitava na época.
Só depois de morar nos EUA é que mergulhei mesmo no samba, e daí mantive até hoje paixão por Cartola, Noel Rosa, Clementina de Jesus, Adoniran Barbosa, Ataulfo Alves, Clara Nunes, Paulinho da Viola, que são figuras que ouço muito até hoje.
Ouço muita música do Nordeste, em geral: coco, ciranda, xaxado, maracatu, embolada, aboios. Gosto muito de aboios. Não ouço Luiz Gonzaga com frequência, mas quando ouço, vou cinco, seis discos em sequência.
Ouço muita música de New Orleans, em geral: Professor Longhair, The Meters, The Neville Brothers, Dr. John.
E muita música cubana, argentina e africana. E muito Beatles, claro. -
asked by ApudLarissa
Ah, eu dou o braço em torcer em várias coisas. Posso fazer uma lista pra você: 1) Em 1998, comando nacional do PT invade PT-RJ, desautoriza a convenção que havia escolhido Vladimir Palmeira candidato a governador e impõe uma aliança com Garotinho; 2) Em 2008, PT faz absurdo acordo com Aécio em MG em torno da figura de Márcio Lacerda, um prefeito higienista e fascista, acordo que ainda vai custar muito caro ao PT; 3) Em 2010, logo depois da eleição da Dilma, PT entrega o Ministério da Cultura a Ana de Hollanda, representante do Ecad e do lobby dos direitos autorais.
E por aí vai. Não foram poucas as presepadas. Algumas foram traições, mesmo. -
asked by ApudLarissa
Existe uma literatura "ateísta" nova por aí, bem polêmica e bem desbocada acerca dos malefícios causados pela religião. Ela tem lá seus méritos, mas não costuma me servir muito. São eles:
The God Delusion (Richard Dawkins)
God is not Great (Christopher Hitchens)
The End of Faith (Sam Harris)
Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon (Daniel Dennett)
Essa é uma literatura na qual eu reconheço muitos méritos, e que me chama a atenção pela coragem de desafiar dogmas e colocar a questão do ateísmo na pauta do dia. Mas ela é (Hitchens um pouco menos, os outros mais) bastante ingênua em alguns aspectos. Dawkins, por exemplo, se transformou em uma espécie de papa do ateísmo. Mas trata-se de um cara que, apesar de talentosíssimo para refutar cientificamente o teísmo (ele é biólogo), vai muito mal quando tenta explicar sociologicamente o papel da religião do mundo. Articulei essa crítica aqui:
http://www.idelberavelar.com/archives/2007/04/a_ilusao_de_deus_de_richard_dawkins.php
Para o meu ateísmo em particular, muito mais influente do que esse racionalismo humanista foi o pensamento de Nietzsche. Ao contrário dos cientistas racionalistas, Nietzsche não vê a religião como manifestação de um atraso, mas como resultado necessário de uma derrota das forças vitais numa luta histórica, que poderia ter tido outro resultado (essa derrota pra ele tem dois nomes: socratismo, primeiro, cristianismo, depois). Aqui, os quatro livros que mais fizeram a minha cabeça foram: "O Anticristo", "A Gaia Ciência", "Assim Falou Zaratustra" e "Genealogia da Moral".
Meu ateísmo vem desses livros, muito mais do que de Marx ou de Freud, embora eu também recomende "A Sagrada Família" e "Futuro de uma Ilusão", clássicos respectivos sobre a religião. -
asked by ApudLarissa
Sobre a Reforma Política eu tenho opinião firme, em cada um dos 11 principais temas em discussão:
http://www.idelberavelar.com/archives/2011/03/comeco_do_governo_dilma_2_parte_guia_da_reforma_politica.php -
asked by ApudLarissa
É uma pílula ultra-amarga, que vem de bem antes da Dilma, claro. O Lula bancou o Sarney durante oito anos e eu sempre caracterizei a aliança com ele, no Maranhão e em Brasília, como a parte mais dura de se aceitar em toda a experiência do lulismo. Apesar de ter apoiado Lula durante oito anos, critiquei essa parte e sempre denunciei as falcatruas no Maranhão. Denunciei, por exemplo, o remoção do Governador Jackson Lago pela dinastia Sarney com base na manipulação de um detalhe jurídico técnico:
http://www.idelberavelar.com/archives/2009/04/maranhao_os_tribunais_eleitorais_como_instrumentos_do_golpe_de_estado.php
Quanto ao depoimento, a notícia que foi circulada durante meses, em todas as fontes, foi a de que Sarney seria uma das testemunhas de defesa do Ustra. Ontem à tarde, ele sentiu a necessidade de negar isso. Disse que não recebeu comunicação nenhuma e que não aceitaria depor em favor de Ustra:
http://sul21.com.br/jornal/2011/07/sarney-diz-que-nao-vai-participar-de-julgamento-do-coronel-ustra/
É no mínimo estranho, porque a notícia, como eu dizia, está por aí há meses. Não era segredo para ninguém que Sarney estava arrolado como uma das testemunhas. A fonte não era um só jornalista, mas os grupos de defesa dos direitos humanos, o Tortura Nunca Mais etc. Mas o fato é que, pelo jeito, no final das contas, ele não depôs. Talvez não saibamos nunca se foi pela repercussão da própria notícia.
Em todo caso, minha opinião sempre foi a de que figuras como Sarney só vão desaparecer mesmo depois de algumas décadas de Reforma Política. Há algo de profundamente repugnante nelas, mas há algo que também é reflexo de um pedaço de nós, uma parte do que somos. Por isso é que, apesar de ter profundo nojo do cabra, sempre suspeitei um pouco da gritaria vazia "Fora, Sarney!". Em geral, essa gritaria -- como você disse muito bem outro dia no Twitter -- vem de paladinos da moral, que são aqueles que costumam replicar exatamente o que criticam.
Mais difícil -- mas também mais produtivo -- é entender o que a existência (e a centralidade!) de uma figura dessas, um capanga cordial, um jagunço letrado, diz sobre nós, sobre quem somos, sobre nossa singularidade como nação. -
O melhor livro, na minha opinião, é El factor Borges, de Alan Pauls. Há uma coletânea editada pelo Jaime Alazraki que traz alguns dos artigos clássicos.
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O Hugo já respondeu belamente essa pergunta. Faço minha a resposta dele:
http://www.formspring.me/AlbuquerqueHugo/q/164077459845707111 -
El beso de la mujer araña, do Manuel Puig, seria um excelente romance para começar. Qualquer coisa do Augusto Monterroso também serviria. Crónica de una muerte anunciada, do García Márquez, seria outra opção. Se quiser começar com Borges, os contos de El Aleph talvez funcionem melhor que os de Ficciones.
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Idelber Avelar ’s Bio
Está conta está hibernando. Minhas desculpas aos 567 que ficaram sem resposta.


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