Pergunte ao Evolucionismo

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    8. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      Desculpe não consegui entender sua dúvida. Decidir se o matriarcado existiu ou não (ou se existe) é uma tarefa para antropólogos, sociólogos, etnólogos, historiadores etc. Claro, a existência de matriarcados também vai depender de como vc defina matriarcado. Até onde sei, os debates sobre a existência ou não de sociedades matriarcais (em contraste com matrilocais, matrilineares, matrifocais etc) centram-se nesta questão, da definição e no peso que se dá ao poder político e sociocultural de mulheres nestas sociedades.

      http://www.mosuoproject.org/matri.htm
      http://en.wikipedia.org/wiki/Matriarchy

      Vc está perguntando se o matriarcado é incompatível com a evolução biológica, é isso? Caso, seja essa sua dúvida, não vejo por que seria incompatível. Havendo reprodução e hereditariedade, não vejo problemas.

      Ou talvez vc esteja querendo saber se sociedades matriarcais constituíam o arranjo preferencial dos grupos de hominídeos primitivos em algum ponto do nosso passado como algumas teorias de evolução social baseada em fases (em que o matriarcado seria uma delas) propostas no século XIX levantaram?

      Abraços,

      Rodrigo

      Rodrigo

    9. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)
    10. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      A principal diferença como disse é a intencionalidade por trás do processo. Em relação a este exemplo específico, os predadores escolhem as presas que são mais fáceis de serem capturadas seja isso por contingência e acaso seja por realmente tais indivíduos são mais fracos, mais lentos, mais distraídos, secundariamente resultando do maior sucesso reprodutivo dos que sobram. Caso as características que tornaram esses indivíduos sobreviventes (ex: velocidade, furtividade, força, maior atenção etc) sejam, pelo menos, em parte herdáveis e o contexto permaneça estável veremos estas características se espalharem pelas população ao longo das gerações. No entanto, caso a sobrevivência tenha se dado por sorte (por exemplo estar no lugar certo na hora certa) ou por uma característica intrínseca, mas não herdável tal processo apenas funcionará como um fonte de flutuação da população ao acaso.

      Outra diferença, ainda usando o seu exemplo, é que no caso da seleção humana, em geral, ao invés dela agir por eliminação ela se dá por escolha dos tipos considerados mais adequados que são colocados para dar origem a próxima geração. Este processo é mais semelhante as formas de seleção natural por competição intra-específica e, especialmente, a seleção sexual.

      Abraços,

      Rodrigo

    11. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      Essas leis e regras são tanto o produto como o contexto em que se dá a evolução cultural. Vc pode, talvez até deva (para salientar as eventuais particularidades), chamar isso de "seleção cultural" ou "seleção intelectual" como já fazem alguns cientistas que pesquisam estes fenômenos.

      Aproveitando o gancho da resposta anterior, eu diria que estes processos também podem ser vistos como formas de seleção natural por que as entidades (especialmente em se tratando de indivíduos, mas também tradições, comportamentos e formas culturais) se reproduzem diferencialmente em função de sua adequação a essas regras, leis, costumes etc que o constituem o ambiente que especifica o que é mais ou menos apto. Nesta caso particular, mesmo quando os elementos a se reproduzirem somos nós seres humanos, isso ocorre me geral de forma não intencional já que os indivíduos que vivem em um dado contexto sociocultural e seguindo as tradições de seu grupo e tempo não se apercebem de seu efeito sobre sua própria reprodução e, na maioria dos casos, já recebeu este contexto das gerações anteriores. Se, então, encararmos a evolução de entidades mais abstratas como a cultura este fato fica ainda mais claro, mesmo que seja muitos mais difícil entrar em acordo sobre os detalhes destas entidades e, principalmente, medi-las e quantificar sua replicação e evolução.

      Nas últimas semanas discutimos bastante esse assunto especificamente em relação a evolução das línguas e da mente humana:

      http://www.formspring.me/Evolucionismo/q/194668492174156990
      http://www.formspring.me/Evolucionismo/q/195467668046779941

      Abraços,

      Rodrigo

    12. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      A seleção sexual é vista, pelo menos pela maioria dos pesquisadores, como uma forma particular de seleção natural diretamente ligada à reprodução e escolha de parceiros, envolvendo a adaptação às contingências reprodutivas e de acasalamento de sua espécie ou população.

      A seleção artificial, no entanto, é menos comumente vista como tal já que é engendrada com intenções prévias e visando um objetivo especifico. No entanto, como somos entes naturais é possível argumentar que esta forma de seleção (pelo menos de uma perspectiva externa) também seja um caso particular de seleção natural, em que a adaptação se dá em relação a nossos caprichos e necesidades. Isto é, nós seriamos o ambiente ao qual os organismos se adaptariam. Esta interpretação não é canônica, pelo menos, até onde sei, mas me parece perfeitamente possível e defensável.

      Abraços,

      Rodrigo

    13. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)
    14. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      Inato e adquirido são conceitos complicados e nem sempre muito úteis, como já discutimos aqui, mesmo por que provavelmente vários de nossos comportamentos envolvem elementos de ambos, o que também depende de como definimos estes termos.

      Abraços,

      Rodrigo

    15. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      Comentamos sobre questões relacionadas várias vezes aqui no form. Inclusive sobre as chamadas ciências cognitivas da religião e seu enfoque mais evolutivo. Dê uma olhada em algumas das respostas nas em que lidamos com o tema:

      http://www.formspring.me/Evolucionismo/q/167061904253030733
      http://www.formspring.me/Evolucionismo/q/194648058447820672
      http://www.formspring.me/Evolucionismo/q/195467668046779941
      http://www.formspring.me/Evolucionismo/q/903350617

      Em resumo, a despeito de vários problemas específicos com algumas das abordagens mais badaladas (muitos típicos de disciplinas novas e outros que envolvem as idiossincrasias de nossas própria espécie e as dificuldades, que surgem daí, para estudá-la, como fazemos com as demais) e a falta de amadurecimento das alternativas a corrente principal, estudar a mente humana através de uma abordagem evolutiva é inescapável e merece nossa atenção e empenho, além do eterno olho crítico.

      Abraços,

      Rodrigo

    16. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      Spandrel é como Richard Lewontin e Stephen Jay Gould chamaram as estruturas ou características dos seres vivos que, mesmo exibindo alguma função, teriam surgido, originalmente, como meros subprodutos dos processos (por exemplo, epigenéticos e embriológicos) que estão por trás da produção de um outro fenótipo, este sim, selecionado por causa de seus efeitos na capacidade de sobrevivência e reprodução do organismo. Seriam, desta maneira, conseqüências secundárias da evolução de outras características por seleção natural.

      O termo se refere às áreas curvas entre os arcos que dão suporte a uma cúpula, surgindo como conseqüência de decisões sobre a forma dos arcos e a base da cúpula (que alguns dizem são melhor descritas como "pendentativos";http://www.britannica.com/EBchecked/topic/449698/pendentive), e, portanto, não sendo concebido, desde o início, para o fim de decoração artística, apesar de comumente serem usados para tanto ao receberem sofisticados adornos [http://en.wikipedia.org/wiki/Spandrel_%28biology%29]. Estas "estruturas" são encontrados em catedrais renascentistas na Europa, como a basílica de São Marco daí o título do artigo original em que este conceito foi apresentado.

      http://en.wikipedia.org/wiki/Spandrel

      Em seres multicelulares, o próprio desenvolvimento ontogenético é um processo em que estruturas se originam de outras anteriores através da interação dos genes, do ambiente e do estado prévio do sistema em desenvolvimento, o organismo, o que implica em certas restrições no jeito em que as características podem aparecer. Em parte, esta situação pode ser explicada pelo fato de muitos dos genes associados a '[auto]construção' de certas características fenotípicas interagirem com uma gama de outros genes (epistasia), para tanto, e/ou participam em outras fases do desenvolvimento e na origem de outras estruturas, órgão e sistemas (pleiotropia). Este imbricamento genético-desenvolvimental e as restrições e regras de desenvolvimento que surgem a partir dele, por sua vez, podem gerar os tais subprodutos no caminho de se gerar o produto 'principal'.

      http://pt.wikipedia.org/wiki/Pleiotropia
      http://pt.wikipedia.org/wiki/Epistasia

      Stephen Jay Gould and Richard C. Lewontin. "The Spandrels of San Marco and the Panglossian Paradigm: A Critique of the Adaptationist Programme" Proc. Roy. Soc. London B 205 (1979) pp. 581-598 - http://faculty.washington.edu/lynnhank/GouldLewontin.pdf.

      Abraços,

      Rodrigo

    17. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      Não sei se pode ser chamado de politicagem, mas talvez uma certa falta de familiaridade dos editores com ciências naturais e um excesso de familiaridade com certas linhas das humanidades possa explicar isso. Mas poucas editoras trabalham com material mais específico de ciências e de divulgação científica. Parece que esperam o livro virar Best-seller lá fora para traduzi-los e publicos por aqui e tem o problema das tiragens também, pois as editoras querem lucro.

      Mas isso já foi pior, pelo menos essa é a minha impressão. O mercado editorial melhorou e pelo menos encontram-se bem mais livros-texto de ciências do que na minha época de graduação em que tínhamos que nos estapear pelas poucas cópias existentes na BU e/ou revezar com os livros que os próprios professores nos emprestavam. Era uma época dura e selvagem.

      Abraços,

      Rodrigo

    18. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      Na realidade muitos livros sobre ciências não são traduzidos para o português. Nosso mercado editorial ainda precisa crescer e amadurecer mais.

      Abraços,

      Rodrigo

    19. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      Vai uma lista bem incompleta, mas que espero ajudar a se aprofundar no campo.

      David Buss, Leda Cosmides e John Tooby são os principais pesquisadores da área de Psicologia Evolutiva senso estrito (a abordagem que assume a modularidade massiva e domínio-específico, relações relativamente diretas entre esses módulos e os genes, adotando uma perspectiva adaptacionista, mas que assume também aceita a existência de subprodutos adaptativos e ruído cultural e genético.). No sites destes autores existem links para os de colaboradores deles.

      http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/Group/BussLAB/david_home.htm
      http://www.psych.ucsb.edu/research/cep/codirectors/codirectors.html

      Uma pequena introdução sobre esta abordagem, mostrando suas diferenças da PE em relação a genética comportamental humana e sociobiologia, também refutando acusações de determinismo genético por parte dessa disciplina:

      http://www.psych.ucsb.edu/research/cep/primer.html

      Abordagens críticas:

      David Buller:
      http://host.uniroma3.it/progetti/kant/field/ep.htm
      http://host.uniroma3.it/progetti/kant/field/epbiblio.htm

      Jaak Panksepp:

      http://www.bgsu.edu/departments/nmb/page26785.html
      http://philpapers.org/s/Jaak%20Panksepp

      Muitos desses autores não trabalham exclusivamente com a psicologia evolutiva e a maioria destas abordagens também é crítica a PE (senso estrito):

      Teoria dos Sistemas em Desenvolvimento:

      Paul Giffths:
      http://paul.representinggenes.org/

      Russel D. Gray,
      http://www.psych.auckland.ac.nz/uoa/russell-gray/

      Susan Oyama
      http://en.wikipedia.org/wiki/Susan_Oyama

      Michael Dunn (Psicolinguistica) - trabalha em colaboração com Gray
      http://www.mpi.nl/people/dunn-michael

      Construção de Nicho:
      http://lalandlab.st-andrews.ac.uk/links.html

      Kevin Laland
      http://lalandlab.st-andrews.ac.uk/
      http://lalandlab.st-andrews.ac.uk/niche/

      F. John Odling-Smee
      http://philpapers.org/s/F.%20John%20Odling-Smee

      Marcus Feldman
      http://www-evo.stanford.edu/marc.html

      Co-evolução gene cultura:

      Robert Boyd
      http://www.sscnet.ucla.edu/anthro/faculty/boyd/

      Peter J. Richerson
      http://www.sscnet.ucla.edu/anthro/faculty/boyd/

      Seleção de grupos característicos (trait-groups selection)

      David Sloan Wilson
      http://evolution.binghamton.edu/dswilson/

      Biosemiótica:

      Terence W. Deacon
      http://anthropology.berkeley.edu/people/person_detail.php?person=11

      Sociobiologia Humana:

      http://plato.stanford.edu/entries/sociobiology/
      http://en.wikipedia.org/wiki/Sociobiology

      E. O. Wilson:
      http://www.unl.edu/museum/research/entomology/workers/EWilson.htm

      Ecologia comportamental Humana:
      http://en.wikipedia.org/wiki/Human_behavioral_ecology

      Eric Alden Smith
      http://faculty.washington.edu/easmith/

      Kermyt G. Anderson
      http://faculty-staff.ou.edu/A/Kermyt.G.Anderson-1/

      http://faculty-staff.ou.edu/A/Kermyt.G.Anderson-1/HBE/


      Muita pesquisa em psicologia evolutiva se dá dentro de centros de antropologia evolutiva, ou sobre esta alcunha, alguns dos pesquisadores se alinhando mais a PE e outros a outras abordagens:

      http://en.wikipedia.org/wiki/Evolutionary_anthropology
      http://www.eva.mpg.de/english/index.htm
      http://www.icea.ox.ac.uk/
      http://evolutionaryanthropology.duke.edu/

      Outros:

      Luigi Luca Cavalli-Sforza
      http://en.wikipedia.org/wiki/Luigi_Luca_Cavalli-Sforza

      David F Bjorklund
      http://en.wikipedia.org/wiki/Evolutionary_Psychology_Research_Groups_and_Centers

      http://en.wikipedia.org/wiki/Evolutionary_developmental_psychology

      http://philpapers.org/rec/GODAAT

      Além disso boa parte dos autores que trabalham com Antropologia cognitiva e com as ciências cognitivas da religião seguem também abordagens evolutivas:

      Pascal Boyer
      http://artsci.wustl.edu/~pboyer/PBoyerHomeSite/index.html

      Scott Atran
      http://sitemaker.umich.edu/satran/home

      Ilkka Pyysiäinen
      http://www.helsinki.fi/collegium/english/staff/Pyysiainen/pyysiainen.htm

      Abraços,

      Rodrigo

    20. Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

      Seleção natural e deriva genética são dois processos pelos quais variantes herdáveis podem ser fixadas ou eliminadas de uma população, ou seja, a partir de uma dada freqüência inicial se expandirem até estarem presentes em todos os indivíduos de uma população ou completamente ausentes.

      A seleção envolve o enviesamento desse processo associado a algum efeito fenotípico da característica codificada (ou melhor dizendo influenciada) por uma dada variante hereditária, como uma alelo, isto é, uma versão particular de um gene quando comparado ao fenótipo influenciado por outras variantes. Já a deriva genética de variantes neutras, por outro lado depende de flutuações ao acaso da reprodução e fecundação e, portanto, da frequência relativa do alelo. Seleção e deriva são, desta forma, processos diferentes um do outro, ainda que possam ser bastante difíceis de destrinchar em certas situações a partir da investigação empírica.

      A questão da seleção ao nível do gene é uma outra questão que normalmente é causa de grande confusão pois pode ser compreendida, pelo menos, de dois jeitos bem diferentes. Esta distinção envolve a dicotomia, introduzida por Dawkins, entre 'replicadores' e 'veículos'. Em que os 'replicadores' seriam aquilo que é replicado e é passado através das linhagens germinativas e influência a sua própria chance de replicação, geralmente, de forma indireta. E aí entra o conceito de 'veículo' que para Dawkins podem ser vistos como o organismo ou qualquer característica particular específica deles (fenótipos), especialmente as que influenciam as chances dos 'replicadores' a eles associados se proliferarem.

      Para Dawkins os replicadores por excelência são os genes, Mas aí que os problemas começam já que para ele, os genes são entendidos de forma muito mais abstrata e (até um tanto) dissociada dos "genes" investigados por biólogos moleculares e geneticistas evolutivos. Os genes 'replicadores', na perspectiva de Dawkins, são aquilo que é efetivamente copiado com certa fidedignidade. Seriam a informação por trás das relações entre os genes moleculares e os fenótipos ('veículos') que provocam maior sucesso reprodutivo. É neste sentido que a visão genocêntrica explica a seleção de parentesco, pois os genes ('replicadores') que são passados adiante não são cópias diretas das moléculas do animal altruísta que sacrífica sua reprodução em função da sobrevivência e reprodução de parentes, mas sim a 'informação' equivalente (em geral codificada por seqüências de DNA iguais ou bem semelhantes) que se dá através da cópia dos genes de parentes. É neste sentido abstrato que o Dawkins fala de "seleção ao nível do gene". Neste caso a neutralidade de um gene (replicador) simplesmente faz com que sua perpetuação dependa do acaso ou da contingência, por exemplo, ao pegar carona com genes fisicamente próximos no mesmo cromossomo (ou de cópias equivalentes próximos aos genes selecionados partilhados por parentes). Dawkins não nega a neutralidade de muitos genes(ou até da maioria do genoma), apenas não julga isso relevante já que o que interessa para ele são os que contribuem diretamente para as adaptações, para os veículos.

      É importante lembrar que a seleção ao nível dos genes simplesmente quer dizer que os genes (entendidos de forma abstrata) são as entidades que realmente tem continuidade e que são os beneficiários da adaptação. Porém, esta é uma visão bastante idiossincrática de Dawkins e partilhada por poucos. Isso acontece por que, logo depois que Dawkins propôs a distinção 'replicador/veículo',o filósofo David Hull, propôs uma interpretação diferente para a questão, preferindo o termo 'interator' ao invés de 'veículo', enfatizando o caráter ativo e papel fundamental que os fenótipos (e organismos como um todo) tem na evolução por seleção natural. São os 'interatores' as entidades que realmente interagem ecologicamente e se reproduzem ou não em função de sua características físicas e comportamentais. Enquanto que John Mainard Smith, George C. Williams e Bill Hamilton (outros grandes genocentristas) foram mais sensíveis a esses argumentos e a re-conceitualização a eles associada (ainda que mantenham como Dawkins que os 'replicadores' são os beneficiários da adaptação), aceitando que podem haver 'interatores' em diferentes níveis (como o de grupos, espécies e outros clados etc) e que isso é uma questão disjunta da originalmente defendida por Dawkins, este último não aceitou até hoje essa mudança nos termos do debate. De fato, tanto Williams como Hamilton passaram a propor modelos de seleção em níveis mais altos nas últimas décadas, antes de falecerem.

      Esta concepção muda bastante a 'lógica' do debate já que o ponto de foco passou a ser onde ocorre a interação ecológico-demográfica-populacional propriamente dita que caracteriza o processo seletivo. Outro fator importante é que, ao se concentrar em definições mais palpáveis de replicadores, fica claro que podem haver também 'hierarquias' de 'replicadores', como chamou a atenção outro filósofo chamado Robert Brandon, indo de segmentos de DNA a grupos e, talvez, mas além, chegando a cultura (que é onde Dawkins volta a concordar). Em alguns casos, os próprios replicadores podem ser 'interatores', complicando ainda mais a questão.

      Como pode se perceber, tendo o acima exposto em conta, entramos em outro conceito de “seleção ao nível dos genes”. Desta vez estamos falando de seqüências de DNA que elas mesmas podem sofrer seleção natural, como os elementos genéticos móveis, se expandindo em um genoma através de sua capacidade de se replicar (na verdade em geral fazem isso por intermédio de enzimas codificadas pela própria seqüência). Neste caso, em particular, estas seqüências poderiam ser caracterizadas tanto como 'replicadores' como 'interatores'. Outro exemplo ainda mais interessante é do “impulso meiótico” (meiotic drive) em que uma conjunto de genes muito próximos fisicamente em um mesmo cromossomo podem destruir gametas que não contenham cópias deste bloco gênico, distorcendo o padrão de segregação mendeliana. Neste caso este bloco é o replicador mais a interação é entre gametas e adaptação são as proteínas que destroem outros gametas que não portam o bloco de genes (este bloco de genes também codifica um antídoto que só age localmente prevenindo que o 'veneno' afete o gameta que o produz). Porém, o impulso meiótico pode produzir efeitos bizarros em níveis mais amplos da hierarquia, já que, em alguns casos, indivíduos homozigotos contendo, em ambos os cromossomos, o mesmo bloco gênico não sobrevivem, reduzindo assim a população e aumentando a chance de sobrevivência dos raros homozigotos sem o bloco letal e os também não tão comuns, heterozigotos. Este processo gera de fato seleção em vários níveis de interação, dos gametas, das células diplóides e dos organismos, envolvendo os mesmos replicadores.

      Como fica a neutralidade nesta situação? Nestes casos a deriva genética também é um processo diferente, no entanto, a interação seletiva em um nível pode provocar flutuações aleatórias em outro (de outros genes em outros cromossomos), ao mesmo tempo que a neutralidade de um gene/alelo em um nível pode não se refletir em outro em que ele pode ser adaptativo. Mas na maioria dos casos ainda assim seriam fenômenos independentes já que uma parte considerável do genoma não estaria envolvida nessa 'guerra' multi-níveis e a fixação ou perda da maioria desses alelos se daria ao acaso.

      Lloyd, Elisabeth, "Units and Levels of Selection", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2008 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/fall2008/entries/selection-units/>;. Acessado 18/05/2011.

      Okasha, S. Maynard Smith on the Levels of Selection Question, Biology and Philosophy, 20, 5, 989-1010, 2005.

      Okasha, S. The Levels of Selection Debate, Blackwell’s Philosophy Compass 1/1, 74-85, 2006

      Abraços,

      Rodrigo

Evolucionismo (Eli e Rodrigo)

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