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All responses Most smiled responses
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Essa resposta é uma adaptação do meu resumo da ABPMC (Borges, R. P., 2009).
De modo geral, comportamento é um fluxo de alterações quando eventos quaisquer interagem. São exemplos de comportamento: reações químicas mediante interação de substâncias químicas; variações na cotação do dollar em função de alterações nas interações comerciais; conflitos de versões de software e hardware no pc; decida de uma avalanche, etc. O fluxo de alterações é uma relação entre eventos. Na Análise do Comportamento, o fluxo de alterações é o modo como o organismo altera o ambiente e como o ambiente altera o organismo, não necessariamente nessa ordem.
O comportamento é a relação entre eventos ambientais e eventos BIOLÓGICOS ou, de forma mais sintética, é a relação entre organismo e ambiente. Em toda a literatura, chama-se o que um organismo faz (i.e. as classes de respostas) de “evento comportamental”. Eu discordo dessa terminologia porque se o comportamento é a relação entre organismo e ambiente, todos os eventos do organismo e todos os eventos do ambiente são eventos comportamentais. Chamei, então, os “eventos comportamentais” da literatura de eventos biológicos. (Talvez essa também não seja a melhor opção terminológica. Eventos operantes, eventos responsivos, eventos alteradores-do-ambiente-e-por-ele-alterados etc. Ainda é preciso rever).
O comportamento biológico estudado pela AC não pode acontecer sem um organismo ou sem um ambiente. Os eventos biológicos, observados como “respostas”, não expressam relações funcionais em si mesmos, logo, resposta e comportamento não podem ser tratados como sinônimos. Tratar comportamento como classe de respostas recorre em um erro de categoria. Tirar boas notas em provas, ter senso de humor refinado, conhecer várias obras literárias são respostas qualitativamente classificadas como “inteligentes” e dizer que inteligência é uma classe de respostas inteligentes nada acrescenta enquanto definição. Pode-se falar apenas em “classe de respostas inteligentes”, portanto, chamar classe de respostas de comportamento, tornaria este termo irrelevante. Uma classe de respostas é constituída por eventos biológicos que se relacionam funcionalmente com eventos ambientais, os estímulos.
Desculpe a demora para responder. Em breve responderemos a todas as outras perguntas.
Att,
Rubilene.
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Referência
Borges, R. P. (2009). Comportamento: resposta ou relação? Anais do XVIII Encontro da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental. -
Primeiramente, definamos o que vem a ser “determinante” para a Análise do Comportamento. Determinantes são relações funcionais. Usualmente, a ciência trabalha com a determinação por “causa-e-efeito”, na qual temos que dada a ocorrência de um evento A, este causa a ocorrência do evento B, garantidamente e dentro de uma relação 1:1. Se eu aplico uma força X em um objeto de massa Y, com atrito W, o objeto se move em uma velocidade Z.
Influenciado por Ernest Mach, Skinner propôs que o comportamento deva ser analisado em termos de funções probabilísticas entre eventos ambientais e do organismo. As relações funcionais não implicam em garantia de 100% de ocorrência do evento B mediante o evento A. O evento B, isto é, o comportamento, pode ser função simultaneamente do fator determinante A, C, D, J, K etc. O comportamento é multideterminado (Chiesa, 2006, p. 96-121). E cada comportamento emitido depende diretamente do ambiente histórico e do ambiente imediato do emissor (Skinner, 1953/2005, p. 31).
Todo organismo é biológico, logo, o comportamento de um organismo depende da história evolutiva daquele organismo, que chamamos de filogênese. É por essa determinação que somos suscetíveis ao nosso ambiente (através de receptores exteroceptivos, interoceptivos e proprioceptivos). A filogênese determina uma porção de nosso comportamento, e dá a base para outras determinações. Neste âmbito estão as causas biológicas do comportamento e os reflexos biologicamente importantes, que outrora foram chamados de instintivos.
Todo comportamento ocorre em um contexto, em um local, em um determinado tempo. Todo comportamento opera sobre o mundo e assim o altera, o que por sua vez, também altera comportamentos subseqüentes. (Skinner, 1957, p.1). As alterações podem ser facilmente identificáveis, como quando você diz algumas palavras doces a alguém que você gosta, e assim recebe um tratamento igualmente afável em retorno. Também podem ser alterações triviais e pouco notáveis, como quando você lembra o nome de um velho amigo após fazer uma pergunta em pensamento sobre a data de hoje, que coincidentemente é a data do aniversário do seu amigo. O contexto evoca, de maneira probabilística, uma determinada gama de respostas. Entretanto, quem se comporta é um organismo, e um organismo, além da história da espécie, também carrega uma história de vida. Dependendo da história de vida, uma pessoa que acorda em pânico numa madrugada silenciosa, sem conseguir movimentar seu corpo, pode achar que está sendo abduzida por extraterrestres, como visto nos filmes, ou estar ciente de que está passando por um episódio de paralisia do sono, como diagnosticado pelo seu médico. Tudo depende do que ela conhece, do que ela acredita, instâncias que dependem inteiramente de sua história de vida. A história de vida do organismo, que chamamos de ontogênese, criada em cima das possibilidades da história filogenética, em contato com um contexto, determinam probabilisticamente o comportamento que ali ocorre, naquele instante. A história cria um repertório de comportamentos, o contexto faz com que determinados comportamentos sejam mais prováveis de ocorrer, e as consequências destes comportamentos os selecionam.
Quando se trata de humanos, grande parte da história de vida do organismo é social, ou seja, ocorre em contato com outros membros da espécie, em uma cultura. O contexto social antecede e ultrapassa a vida de uma pessoa. Práticas culturais são criadas e mantidas pelo comportamento sincronizado de um grupo de indivíduos. Grande parte de nossas práticas culturais são mantidas por comportamento verbal. Graças ao conhecimento acumulado por gerações sobre o efeito de determinadas contingências, hoje todo pai ensina seu filho a escovar os dentes. Inicialmente a criança apenas segue a regra, pois seu pai os demais membros da cultura assim o recomendam. Entretanto, a criança pode manter este comportamento posteriormente pelas suas consequências diretas, como o sabor de uma pasta de dente agradável ou a manutenção da saúde bucal. Em meio social, contextos e consequências de comportamentos de organismos individuais se entrelaçam, produzindo resultados que, por um lado não são produto direto da ação de um indivíduo, mas que por outro, quando em conjunto com outras contingências, criam um efeito a longo prazo que afeta o indivíduo novamente. É o caso do entupimento de um canal de esgoto pelo acúmulo de lixo. Uma criança que joga um pedaço de papel no caminho do esgoto não entope a via. Entretanto, se 50 crianças jogarem, a via entope, e a partir disso (em um mundo ideal) começam as campanhas de educação ambiental.
Os determinantes do comportamento atravessam estes três níveis, de forma inclusiva. Todo comportamento tem parte de sua determinação na filogenia, na ontogenia, e, se tratando de animais gregários como os humanos, na cultura (Moore, 1990; Skinner, 1981). Tendo isso em vista, o Analista do Comportamento realiza um recorte epistemológico, focando no nível que mais tem relevância na determinação de um comportamento específico. Tratando de fobias, sabemos que há um forte componente respondente, já que o estímulo eliciador da fobia, como uma aranha para um aracnofóbico, dispara uma sequência de poderosas respostas fisiológicas, como o aumento do ritmo cardíaco e a ativação glândulas hormonais específicas. Em um caso desses, uma intervenção direta na fisiologia seria improvável, e um tanto quanto incômoda, entretanto, é possível alterar a cadeia respondente a partir de uma intervenção na história de aprendizagem do indivíduo, a partir da aplicação de procedimentos de dessenssibilização sistemática com o estímulo fóbico.
Desta forma, a ênfase é condicional ao problema em questão. Em problemas de intervenção, a ênfase é prática. O foco fica nos determinantes possíveis de serem modificados, que em geral estão no ambiente externo e imediato (já que modificar o passado e o cérebro ainda é material de ficção científica). Em se tratando de pesquisa, o tema é obrigatoriamente tratado em sua multideterminação. Um estudo empírico pode tratar de um foco especial, mas ele deve sempre dialogar com as demais possibilidades de causação.
Att,
Hernando Neves Filho e Rubilene Borges.
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Referências
Chiesa. M. (2006). Behaviorismo Radical: a filosofia e a ciência. Brasília: IBAC Editora e Editora Celeiro.
Moore, J. (1990). On the “causes” of behavior. The Psychological Record, 40, 469-480.
Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.
Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 213, 501-504.
Skinner, B. F. (2005). Science and Human Behavior. B. F. Skinner Foundation. Publicado originalmente em 1953.
Leituras Complementares:
Aló, R. M. (2005). História de Reforçamento. Em J. Abreu-Rodrigues & M. R. Ribeiro (Orgs.). Análise do Comportamento: pesquisa, teoria e aplicação (pp.45-62). Porto Alegre: Artmed.
Andery, M . A. P. A., & Sério. T. M. A. P. (2001). Behaviorismo Radical e os determinantes do Comportamento. Em H. J. Guilhard, M. B. B. P. Madi, P. P. Queiroz, M. C. Scoz & C. Amorim (Orgs.). Sobre Comportamento e Cognição, 7 (pp. 137-140). Santo André: ESETec.
Cirino, S. (2001). O que é história comportamental. Em H. J. Guilhard, M. B. B. P. Madi, P. P. Queiroz, M. C. Scoz & C. Amorim (Orgs.). Sobre Comportamento e Cognição, 7 (pp.132-136). Santo André: ESETec.
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O conceito de Operações Estabelecedoras (OEs) foi introduzido por Keller e Schoenfeld (1950/1973) dentro de análises para variáveis motivacionais. Essas análises tratavam de como o Drive (traduzido como Impulso) alterava a dinâmica do processo de reforçamento, sendo que cada Drive é estabelecido por alguma operação. Por exemplo, o Drive da fome é estabelecido pela operação de privação (p. 286, 287).
Mais tarde o conceito foi refinado por Jack Michael (1982, 1993). Segundo Michael, OEs são eventos, operações ou estímulos que afetam um organismo alterando momentaneamente a efetividade reforçadora de outros eventos e a frequência da parte do repertório do organismo que foi reforçada por esses eventos.
Essas alterações ocasionadas pelas OEs são divididas em quatro efeitos:
Efeito estabelecedor de reforçamento: altera a efetividade do reforço.
Efeito evocativo/supressivo da operação estabelecedora: evoca ou suprime respostas consequenciadas previamente por reforço alterado por uma OE.
Efeito evocativo/supressivo do Sd: aumenta a efetividade evocativa ou supressiva do Sd correlacionado com conseqüência prévia alterada por OE.
Efeito sobre o reforçamento/punição condicionada: dentro de uma cadeia de eventos, é o efeito de aumento/diminuição da efetividade reforçadora/punidora de um reforço/punidor condicionado em correlação a um segundo reforço/punidor, o qual foi alterado por uma OE e reforça/pune a classe de respostas evocadas pelo primeiro reforço/punidor.
As OEs são divididas em incondicionadas (OEIs) e OEs condicionadas (OECs). As OEIs são fruto da história filogenética do organismo e as OECs são aprendidas durante a história ontogenética.
As OECs foram divididas em:
OECs Substitutas (OEC-S): uma OEC que adquire mesma função que outra OEC (ou uma OEI) através de um emparelhamento semelhante ao condicionamento respondente.
OECs Reflexivas (OEC-R): um tipo do OE que corresponde ao chamado “estímulo pré-aversivo”. Nos casos de esquiva e fuga, o estímulo antecedente não seria um Sd, como indica a literatura, pois sem sua presença, a resposta não tem como ocorrer. Não condição S-delta possível na situação. Logo, ao invés do pré-aversivo ter função discriminativa, ele tem função evocativa e é, portanto, uma OEC, do tipo reflexiva.
OECs Transitivas (OEC-T): um estímulo discriminativo (S1) que controla uma resposta (R1) que só pode ser emitida na disponibilidade de um segundo estímulo discriminativo (S2). No caso, S1 estabelece função reforçadora condicionada a S2 para a resposta (R2), que produz S2.
Esse é um dos temas mais complexos do arcabouço teórico da Análise do Comportamento e, apesar de já ter 20 anos de formulação, carece ainda de muita pesquisa. Cito a seguir, as referências que achei mais relevantes para introduzir o conceito. Você pode, então, buscar as referências citadas nas que indiquei e escolher como conduzir seu estudo. Espero ter ajudado.
Obrigada por perguntar.
Rubilene.
Referências:
Keller, F. S. & Schoenfeld, W. N. (1973). Princípios de Psicologia. São Paulo: E.P.U. (Trabalho original publicado em 1950).
Michael, J. (1982) Distinguishing Between Discriminative and Motivational Functions of Stimuli. Journal of Experimental Analysis of Behavior, 37, 149-155.
Michael, J. (1993a). Establishing operations. The Behavior Analyst, 16 (2), 191-206.
Textos Introdutórios (ricos em exemplos didáticos):
da Cunha, R. N. & Isidro-Marinho, G. (2005). Operações Estabelecedoras: um conceito de motivação. Em J. Abreu-Rodrigues & M. R. Ribeiro (Orgs.) Análise do Comportamento: pesquisa, teoria e aplicação. (p.27-44). Porto Alegre: Artmed.
Miguel, C. F. (2000). O Conceito de Operação Estabelecedora na Análise do Comportamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 16, 259-267.
Estudos empíricos:
Pereira, M. B. R. (2008). Operação Estabelecedora Condicionada Substituta: uma demonstração experimental. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Ravagnani, L. V. (2004). Uma demonstração experimental das operações estabelecedoras condicionadas transitivas com ratos: uma replicação de da Cunha (1993). Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
de Sena, C. N. (2005). Operações estabelecedoras condicionadas reflexivas: um estudo empírico com humanos. Dissertação de Mestrado. Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília.
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Não encontrei estudos específicos em Análise do Comportamento sobre o assunto.
A leitura pode ser um hábito prazeroso a depender das contingências. Em situação de ensino programado, o chamado “método Keller” (Keller, 1966) visa uma estratégia de ensino, por assim dizer, mais prazerosa, baseada em reduzir a níveis mínimos as contingências aversivas. Esse método é realizado através de um Sistema Personalizado de Instrução (SPI). O SPI consiste em ensinar os alunos por meio de tutorias, de maneira que o aluno seja atendido individualmente por um professor ou monitor. Além disso, o ritmo do ensino é ditado pelo ritmo do próprio aluno, não havendo, portanto, uma cobrança para que ele atinja o critério de velocidade de aprendizagem de um aluno ideal.
Fora do ambiente de ensino, um leitor pode diminuir a aversividade da leitura sortindo o conteúdo dos textos; intercalando leituras mais difíceis e longas, como as acadêmicas, com leituras mais acessíveis e breves, como revistas, contos, quadrinhos etc. Também é possível arranjar contingências de reforçamento positivo colocando a leitura obrigatória antes de eventos reforçadores (e.g. ver filmes, sair com amigos).
Acima de tudo, ler é um comportamento que demanda um custo de resposta, que deve ser reduzido gradativamente em comparação às contingências reforçadoras. Para isso, o ambiente deve ser o mais ergonomicamente favorável, bem como não se deve exceder o tempo de leitura, que pode ocasionar fadiga do comportamento e comprometer o responder discriminado às relações verbais do texto, o que podemos chamar de compreensão.
Obrigada por perguntar. Esse tema daria um bom problema de pesquisa. Qualquer atualização sobre isso será disponibilizada no www.baboseiras-epistemologicas.blogspot.com
Att,
Rubilene.
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Referências
Keller, F. S. (1966). Engineering personalized instruction in the classroom. Revista Interamericana de Psicologia.
Ver também:
- Sobre auto-instrução
Skinner, B. F. (1958). Teaching Machines. Science, 128, 969-997.
- Sobre leitura e interesse (visão cognitivista)
Hidi, S. (2001). Interest, reading, and Learning: theoretical and practical considerations. Educational Psychology Review, 13, 191-209. -
asked by jeanvictorgg
Antes de falar da família, falarei de comportamento, cultura, determinismo, arbítrio e influência.
- Determinismo é a “teoria filosófica de que todo acontecimento (...) é explicado (...) por relações de causalidade” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Determinismo).
- Arbítrio é uma “determinação dependente apenas da vontade” (http://www.dicio.com.br/arbitrio/).
- Comportamento é uma relação entre organismo e ambiente (Borges, 2009). Não é determinado pela vontade nem por relações de causalidade, mas sim por relações funcionais, isto é, interações probabilísticas com várias “causas” possíveis e nenhuma agindo de modo mecanicista (http://bit.ly/ackqPQ). O comportamento operante é função de níveis de seleção: filogenético, ontogenético e cultural (http://bit.ly/apdkoQ).
- Cultura é um conjunto de eventos ambientais sociais que contribui em um nível de seleção do comportamento (Skinner, 1981).
- Influência é a “ação de uma pessoa ou uma coisa sobre outra” (http://www.dicio.com.br/influencia/). Logo, o responder de um organismo é influenciado pela ação das pessoas que fazem parte de seu ambiente cultural, de maneira multideterminada e probabilística.
A família é um grupo de pessoas que participa do ambiente sócio-cultural de um indivíduo. Também fazem parte desse ambiente a escola, o trabalho, a religião, o governo, entre outras. Todas essas agências controladoras (Skinner, 1953) modificam o comportamento do indivíduo e do grupo. Mas como ela controla? Por contingências de reforçamento (ou por coerção). Falemos das contingências de reforçamento.
Reforçamento é o aumento da freqüência de respostas de um organismo em função de um reforçador. E reforçador é a função contingente de um evento ambiental, posterior a uma resposta, e que aumenta a probabilidade de ocorrência dela na presença de um outro evento ambiental antecedente.
A família é provedora de potenciais reforçadores às pessoas desde o nascimento até um período indeterminado da idade adulta. Os reforçadores podem ser sociais, como conversas amistosas, ou físicos, como dinheiro. Assim sendo, a família exerce sua influência sobre o indivíduo através de relações operantes.
Em Análise do Comportamento, há um conceito importante no estudo das relações comportamentais entre grupos culturais: metacontingências. Contingência é uma relação funcional entre eventos. No caso do comportamento, estamos falando de organismo e ambiente. A metacontingência é algo que está além de uma contingência simples que envolva o foco de análise nas respostas de um indivíduo, nas alterações que essas respostas ocasionam no ambiente e como o ambiente retroage sobre o indivíduo.
Metacontingência é o conjunto de contingências entrelaçadas, que gera um produto agregado a partir de operantes de vários indivíduos e um sistema receptor que seleciona essas relações (Glenn & Malott, 2004). Este produto agregado não é cumulativo, como no caso de uma macrocontingência. O produto agregado difere do acumulado na medida em que não é formado pela somatória do produto das respostas de cada indivíduo do grupo, mas sim pelas interações entre esses indivíduos.
Por exemplo, o sucesso de um time em jogo de futebol depende da ação de todos os jogadores. A vitória em tempo normal de jogo é um produto agregado, pois foi formado a partir das contingências entrelaçadas do comportamento de cada jogador. Caso a disputa fosse definida em pênaltis, a vitória seria um produto acumulado, pois seria fruto do somatório da ação de cada jogador separadamente. Ambos os tipos de produto fazem seleção do repertório comportamental de cada indivíduo.
Na família, há macrocontingências como quando você quer pintar seu quarto e daria muito trabalho fazê-lo sozinho. Se você, seus pais e seus irmãos pintarem juntos, a resposta de pintar será reforçada efetivamente pela conseqüência “paredes pintadas” e gerará um produto acumulado “quarto pintado rapidamente e com pouco esforço”. Também há metacontingências: em uma família com histórico de relações sociais reforçadoras, cada membro da família exerce controle sobre o comportamento do outro (contingências entrelaçadas), que promovem o bom convívio da família, a participação de todos nas atividades rotineiras como refeições, limpeza e entretenimento (produto agregado), sendo que esse modelo de interação social familiar é selecionado pela igreja, pelo governo, pelos programas de TV etc (sistema receptor).
Quanto ao nível de influência da família em detrimento da influência de outros grupos culturais, a Psicologia Social fala sobre dois tipos de inserção cultural: a Socialização Primária e a Socialização Secundária (Gomes, 1994). Socialização primária corresponde às primeiras influências na vida de um indivíduo, influências essas que compõe a “personalidade” (entendida aqui como algo em constante mudança em função das variáveis ambientais) desse indivíduo, isto é, que modela o repertório social básico, tornando o indivíduo apto a viver em sociedade. As influências ocorridas após esse período, ou as novas inserções sociais do indivíduo em novos grupos sociais é a Socialização Secundária. Em geral, a família faz parte do processo de Socialização Primária e é o grupo social que mais frequentemente perdura ao longo da vida do indivíduo.
Outros grupos como amigos de vizinhança, ou colegas e professores do colégio, que podem também fazer parte da Socialização Primária, na maioria das vezes se dissipa com o passar do tempo. A Psicologia Social diz que a Socialização Primária é mais efetiva e mais influente sobre a vida das pessoas, ou seja, há muitas coisas estabelecidas por essa Socialização que são difíceis de serem mudadas pela Socialização Secundária. Não entrarei nas discussões apresentadas pela Psicologia Social por não achá-las pertinentes à análise comportamental e por falta de repertório pessoal mais amplo sobre o assunto.
Pela Análise do Comportamento, por que a Socialização Primária seria mais efetiva que a Secundária? Porque essas influências iniciais são mais freqüentes por um período mais extenso que as demais. E família, quando é um grupo responsável pela Socialização Primária e mantém-se freqüente na vida do indivíduo por período indeterminado, as contingências de reforçamento (especialmente as entrelaçadas) estão bastante estabelecidas e garantem a manutenção de um mesmo tipo de repertório.
Logo, a família é personagem importante na formação do repertório comportamental. O seu grau de controle sobre esse repertório varia em função história das relações sociais mantidas entre os membros dessa família. Um indivíduo que sempre teve pouca interação com a família, ou manteve relações aversivas, provavelmente será menos influenciado pelas contingências (ou metacontingências) familiares enquanto estiver distante dela. Todavia, cada caso é um caso. Não há receita geral do grau de influência da família na vida de alguém, pois seu repertório é função de todas as muitas interações sociais e, na vida contemporânea, via internet, essas relações podem ser estendidas ao mundo inteiro, classificando a família como mais uma das possíveis agências controladoras do repertório social dos indivíduos.
A resposta acabou ficando muito extensa, mas com informações muito condensadas. Fique à vontade para fazer outras perguntas sobre essa resposta.
Att,
Rubilene
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Referências
Borges, R. P. (2009). Comportamento: resposta ou relação? Anais do XVIII Encontro da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental. http://bit.ly/abF2DB
Glenn, S. S., & Malott, M. E. (2004). Complexity and Selection: implications for organizational change. Behavior and Social Issues, 13, 89-106.
Gomes, J. V. (1994). Socialização Primária: tarefa familiar? Cadernos de Pesquisa, 91, 54-61.
Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 213, 501-504.
Skinner, B. F. (1953).Science and Human Behavior. New York: Macmillan.
Sugestão de leitura sobre Metacontingências em família:
Naves, A. R. C. X. (2008). Contingências e metacontingências familiares: um estudo exploratório. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciência do Comportamento. Universidade Federal de Brasília. -
asked by jeanvictorgg
Sim. Todo comportamento é selecionado por suas consequências.
É uma premissa antiga, e fácil de ser observada. Uma de suas primeiras formulações foi ainda na filosofia do Séc. XIX, no princípio de Spencer-Bain. Dois filósofos (Herbert Spencer e Alexander Bain) afirmaram e argumentaram, a partir da lógica filosófica da época, que à toda ação que se segue um resultado benéfico, pratico ou emocional, há um fortalecimento. O inverso também foi afirmado: a toda ação a qual se segue algo desagradável, há um enfraquecimento. Segundo estes filósofos, o pareamento de emoções positivas e negativas com a ação era a responsável pelo fortalecimento ou enfraquecimento das ações em ocorrências futuras.
No início do Sec. XX, o pioneiro Psicólogo Experimental E. L. Thorndike apresentou uma das primeiras leis científicas sobre a aprendizagem, a lei do efeito. Tratava-se de uma demonstração empírica do princípio de Spencer-Bain. Thorndike demonstrou numa série de experimentos, com sujeitos de diferentes espécies, que determinados comportamentos, que produziam consequências benéficas ao sujeito, em determinadas situações, tendiam a ter ocorrência predominante em situações similares. Um dos exemplos clássicos dados por Thorndike é o do gato na caixa-problema. Um gato qualquer, quando colocado preso no interior de uma caixa-problema, a qual ele nunca antes teve contato, começa a apresentar uma série de diferentes comportamentos. Eventualmente, de gato pra gato, o animal acaba descobrindo o mecanismo que abre a portinhola da caixa (um pequeno ferrolho escondido em um dos cantos da caixa). A partir disso, toda vez que o gato é re-exposto a situação da caixa-problema, a resposta que produz a abertura da portinhola se torna preponderante em relação as que outrora também ocorreram nesta mesma situação. Thorndike então, na mesma linha de raciocíno de Spencer e Bain, argumenta que comportamentos que produzem efeitos prazeirosos são fortalecidas, e comportamentos que produzem efeitos desagradáveis são enfraquecidos. (Esta é a formulação da Lei do efeito forte de Thorndike. Posteriormente, este autor descartou a noção de enfraquecimento do comportamento, e esta noção ficou conhecida como a Lei do efeito fraca).
Entretanto, a mediação do aumento ou diminuição da frequência do comportamento por agentes emocionais vagos e pouco claros comprometeu a aceitação destes dois modelos.
B.F. Skinner, já na segunda metade do Séc.XX, apontou uma saída às explicações mediacionais embaraçosas: o modelo de seleção pelas consequências. Neste modelo, o comportamento é selecionado (aos mesmos moldes da seleção natural) pelas consequências que o seguiram, contigua e contingêntemente, em situações anteriores, em ordem probabilística. Desta forma, uma resposta "R", que ocorre em um contexto "Sd" e produz uma consequência "S", será selecionada pela função que aquela consequência "S" teve. Se em situações futuras, no mesmo contexto "S", ou em contexto similar (variando em um ou vários aspectos) aquela resposta volta a ocorrer com predominância, podemos afirmar que o estímulo "S" selecionou aquela resposta, e é portanto, para os iniciados, um S+ (princípio da aprendizagem operante). O modelo de seleção por consequências rompe com os anteriores por adotar uma postura probabilística. Não há um agente causador 1:1, não há causa e efeito mecanicista, há sim um controle contextual e uma seleção da variação que cria uma relação funcional entre uma gama de diferentes eventos. O princípio de Spencer-Bain e a lei do efeito de Thorndike, ao postular que as consequências criam sensações ou emoções internais, adota um modelo causal mecanicista, de causa e efeito, mediacional, onde é a sensação interior que causa, em proporção rígida, o comportamento. Tal rigidez é deixada de lado no modelo de seleção pelas consequências, já que nele, a medição do comportamento é feita com base na probabilidade de sua ocorrência. Determinados contextos e determinadas histórias pessoais aumentam ou diminuem a probabilidade de uma gama distinta de classes de resposta, que estão em constante vias de seleção pelas consequências que as seguem.
Att. Hernando Neves Filho
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Bibliografia
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Sobre a lei de Spencer-Bain
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Bain, A. (1902). The senses and the intelect. New York : D. Appleton and Company.
- Obra original de Alexander Bain, pode ser baixada na íntegra aqui: http://www.archive.org/details/sensesintellect00bain
Boakes, R. (1984). From Darwin to behaviorism: psychology and the mind of animals. Cambridge University Press.
- Um excelente livro de história da psicologia experimental. Leitura recomendadíssima! A discussão sobre o princípio de Spencer-Bain se encontra no capítulo 1.
Spencer, H. (1873). The principles of psychology. New York : Appleton.
- Obra original de Spencer, pode ser baixada na íntegra aqui: http://www.archive.org/details/principlespsych35spengoog
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Sobre a Lei do Efeito, de Thorndike
-
Thorndike, E. L. (1911). Animal inteligence: experimental studies. The Macmilliam Company.
- Histórica tese de doutoramento de Thorndike, onde há um grande número de demonstrações empíricas de sua lei do efeito. Pode ser baixado na íntegra aqui: http://www.archive.org/details/animalintellige00thorgoog
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Sobre o modelo de Seleção por Consequências
-
Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 213, 501-504.
- Artigo clássico onde Skinner apresenta sucintamente seu modelo. O .pdf traduzido pode ser adquirido aqui: http://www.bfskinner.org/BFSkinner/Brazil_files/Selecao_por_consequencias.pdf -
Não é bem uma análise do dia, mas é, provavelmente, a análise mais recente e "moderna" do assunto. Menezes (2005) fez, em sua dissertação de mestrado, um compêndio sobre sexualidade humana e discussões de comportamento inato X aprendido. As conclusões da revisão da literatura e da análise crítica das linhas de pesquisa sobre homossexualidade (dentre elas as categorias "medidas hormonais", "efeitos hormonais", "genética", "funcionamento cerebral", "modelos animais" e "efeitos ambientais") apontam que a sexualidade humana e de outras espécies pode ter propensão biológica para heterossexualidade e para homossexualidade, mas não sendo a biologia a variável determinante absoluta do comportamento sexual. A idéia de um "gene gay" está pra lá de obsoleta. Bem como pode ser considerada obsoleta a idéia de que sexo tem por função apenas a reprodução nas demais espécies.
O bonobo (Pan paniscus) é uma espécie de primata geneticamente muito próxima ao homem e ao chimpanzé (Pan troglodytes) e apresenta comportamentos sociais intrigantes. Em primeiro lugar, a hierarquia social é definida pelo parentesco com as fêmeas do grupo e não pelos machos como na maioria das espécies primatas (de Waal, 1999). Em segundo lugar, o contato sexual é parte frequente e até decisiva nas relações sociais. Situações de conflito como em disputa por comida são geralmente amenizadas por contato sexual entre um macho e uma fêmea ou dois machos ou duas fêmeas e até mesmo entre adultos e infantes. Alianças também são formadas por contato sexual. Há contato sexual após comida farta e após passsagem de perigo etc.
Podemos considerar, então, que todo ser humano nasce potencialmente bissexual, sendo que as variações na sua sexualidade serão função das influências do ambiente social. Há pessoas com os mais variados tipos de expressão sexual entre o heterossexual exclusivo e o homossexual exclusivo. Há pessoas que são bissexuais e dizem sentir-se atraídas igualmente por ambos os sexos. Outras são mais atraídas pelo sexo oposto, outras mais pelo mesmo sexo. Há ainda pessoas que apresentam características anatômicas e/ou comportamentais do sexo oposto e são atraídas pelo mesmo sexo, mas outras são atraídas pelo sexo oposto. É uma variedade enorme que está a mercê de variáveis biológicas e ambientais produzindo indivíduos comportamentalmente muito distintos.
Qual deles é mais normal? Todos. Cientificamente não cabe atribuir juízos de valor ao comportamento e rotulá-lo como bom ou ruim, como certo ou errado. Os seres humanos são fruto da história (Skinner, 1981) de sua espécie (filogenia), de sua vida pessoal (ontogenia) e dos grupos a que pertence (cultura ou sociogenia). O comportamento do homossexual é tão fruto da história quanto daquele que o apedreja.
Obrigada por perguntar.
Att,
Rubilene.
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Referências
de Waal, F. B. M. (1999). The end of nature versus nurture. Scientific American, 56-61.
Menezes, A. B. C. (2005). Análise da Investigação dos Determinantes do Comportamento Homossexual Humano. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento. Universidade Federal do Pará. (pode ser obtida no site http://www.ufpa.br/ppgtpc/ )
Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 213, 501-504.
Leituras mais rápidas de Menezes:
Menezes, A. B. C. & Brito, R. (2007). Reflexão sobre homossexualidade como subproduto da evolução do prazer. ComCiência, 0, 1-4.
Menezes, A. B. C. & Carvalho Neto, M. B. (2010). Evolução histórica do conceito de comportamento homossexual humano. Faz Humanidades, 3, 159-165. -
A Análise do Comportamento trata de três níveis de seleção, como descrito por Skinner (1981). O primeiro nível é o filogenético, que diz respeito à história evolutiva da espécie, campo das ciências biológicas focadas no funcionamento do organismo. Neste nível encontram-se todos os comportamentos respondentes e outras predisposições genéticamente determinadas ou influênciadas. O segundo nível é o ontogenético, que trata da história de vida do sujeito, campo relacionado à psicologia e outras ciências comportamentais focadas no comportamento de um organismo individual. Neste campo, estão os estudos sobre aprendizagem e desenvolvimento. O terceiro nível é o da cultura, que trata de práticas culturais e da sobrevivência das culturas, seara de ciências como a sociologia e a antropologia, que trata do comportamento de um grupo de indivíduos. Os três níveis se sobrepõem, e uma determinada instância de comportamento pode atravessar mais de um nível. O comportamento humano, em quase toda sua ocorrência, atravessa os três níveis.
Históricamente, a Análise do Comportamento sempre voltou a maior parte de seus esforços científicos ao segundo nível de análise, o que era de se esperar, na medida em que é uma disciplina nascida na Psicologia. Entretanto, diversos pesquisadores ao longo das décadas tentaram diferentes aproximações com disciplinas sociológicas para estudar o terceiro nível de análise. Alguns dos trabalhos nessa linha que obtiveram algum destaque foram os livros Behavioral Sociology (Bushell & Burguess, 1969), Analysing Social Behavior (Guerin, 1994) e a série de artigos de Sigrid Glenn sobre as metacontingências, possíveis unidades de análise adequadas para o estudo de fenômenos sociais (Glenn, 1986, 1988, 1991). Há também um periódico científico chamado Behavior and Social Issues, de acesso livre, voltado exclusivamente ao estudo de processos sociais, em grande parte, sob a ótica da Análise do Comportamento. Segue o link: http://www.behaviorandsocialissues.org/
No Brasil existem vários pesquisadores trabalhando empírico e conceitualmente neste terceiro nível de seleção. Há um grupo de alunos da PUC-SP que mantém um rico blog sobre o tema ( http://accultura.wordpress.com/ ). Há também um grupo de pesquisa na UFPA que busca análogos de práticas sociais em miniculturas criadas em laboratório, a partir de procedimentos adaptados da Psicologia Social do Sec. XX. Além disso, recentemente foi publicado o trabalho de um pesquisador brasileiro (Tourinho 2009), que apresenta uma poderosa interpretação da subjetividade humana, sob ótica comportamental, a partir de uma análise historiográfica dos costumes da sociedade ocidental aliada à noção de processo civilizador, do célebre sociólogo Norbert Elias, conjuntamente com o conceito de eventos privados, de B.F.Skinner. Um claro e bem sucedido exemplo de interdisciplinariedade da Análise do Comportamento com as ciências sociais.
Desta forma, a interação entre Análise do Comportamento e Sociologia é inevitável. Na medida em que se estude comportamento humano processos sociais estarão inevitavelmente envolvidos, e nesse ponto, a sociologia se mostra uma excelente bibliografia, assim como a Psicologia Social.
Uma questão interessante a se levantar neste momento, é a inversa: qual o papel da Análise do Comportamento na Sociologia?
Assim como é necessário conhecer o organismo que se comporta (filogênese) para se ter uma base para estudar como e porque ele se comporta (ontogênese), também é necessário entender como os organismos individualmente se comportam, para se ter uma base para entender a origem e manutenção de processos sociais (culturais). Nesse ponto, a Análise do Comportamento certamente oferece uma gama de novos paradígmas profícuos para a Sociologia em geral.
Att. Hernando Neves Filho
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Referências
Burgues, R. L.; Bushell, D. (1969). Behavioral Sociology: the Experimental Analysis of Social Process. New York: Columbia University Press.
Guerin, B. (1994). Analyzing social behavior: Behavior Analysis and the Social Sciences. Reno: Context Press.
Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 213, 501-504.
Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 5, 2-8.
Glenn, S. S. (1988). Contingencies and metacontingencies: Toward a synthesis of behavior analysis and cultural materialism. The Behavior Analyst, 11, 161-179.
Glenn, S. S. (1991). Contingencies and metacontingencies: Relations among behavioral, cultural, and biological evolution. Em P. A. Lamal (Orgs), Behavioral analysis of societies and cultural practices (pp. 39-73). Washington, DC: Hemisphere.
Tourinho, E. Z. (2009). Subjetividade e Relações Comportamentais. Editora Núcleo Paradigma. São Paulo. [Pode ser adquirido no site da editora https://www.nucleoparadigma.com.br/loja/ ] -
A Análise do Comportamento é uma disciplina científica que tem como objeto de estudo o comportamento sob uma perspectiva contextual e interacionista, tendo como unidade de análise, em nível ontogenético, a tríplice contingência.
Em uma categorização amplamente aceita, Tourinho (1999) caracteriza a Análise do Comportamento como a disciplina geral composta por três grandes eixos.
O primeiro eixo é a filosofia da ciência na qual a Análise do Comportamento é pautada, o Behaviorismo Radical, inicialmente proposto por B.F.Skinner. Se chama behaviorismo pois sustenta que o objeto de estudo é o comportamento, e é radical pois expande a noção de comportamento para além de uma resposta a um estímulo necessariamente público. No Behaviorismo Radical, o comportamento não é meramente o que é observável (a resposta), o comportamento é a atividade do organismo como um todo, interagindo com o seu ambiente, de acordo com sua história de vida. A "caixa preta" que aturdia os primeiros behavioristas foi aberta pela metodologia operante, que esclareceu a intencionalidade, e pela formulação da noção de eventos privados, que possibilitou uma interpretação comportamental sobre emoções e cognições, antes vistos como inexplicável res cogita cartesiana. O Behaviorismo Radical abandona o mecanicismo, tanto da reflexologia dos primeiros behavioristas quanto do homem-máquina da primeira geração de cognitivistas americanos, e adota um modelo causal selecionista em três níveis (filogenético, ontogenético e cultural). Além de filosofia da ciência, o Behaviorismo Radical também pode ser entendido como uma filosofia monista da mente (Lopes e Abib, 2003).
O segundo eixo é a Análise Experimental do Comportamento, que é uma ciência empírica básica. É a principal fonte de tecnologias comportamentais, e tem destrinchado procedimentos respondentes e operantes, de indivíduos e de grupos. A Análise Experimental do Comportamento produz uma vasta literatura técnica acerca da generalidade e especificidade do comportamento de diferentes organismos em determinadas circunstâncias, dentro e fora do laboratório.
O terceiro eixo é a Análise Aplicada do Comportamento, responsável pela aplicação das tecnologias oriundas do laboratório à casos práticos de intervenção social. Tem tido um êxito sem precedentes em suas aplicações em tratamentos de diversos quadros de síndromes e psicopatologias, como o autismo e o transtorno obsessivo compulsivo.
A produção de conhecimento nestes três eixos, em reciprocidade constante, cria o quadro geral da Análise do Comportamento, mesmo que, em muitos casos, cada eixo se desenvolve com relativa indepêndencia dos demais (Carvalho Neto, 2002).
Desta forma, a Análise do Comportamento é uma disciplina regida pela filosofia do Behaviorismo RADICAL que é apenas um entre vários tipos de Behaviorismo. Existem várias dezenas de outros tipos de Behaviorismos, cada um com seus pontos de encontro e desencontro com o Behaviorismo Radical. O'Donohue e Kitchener (1999) oferecem uma listagem compreensiva (e ainda assim longe de completa) dos behaviorismos do século XX em seu livro Handbook of Behaviorism.
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Referências
Carvalho Neto, M. B. (2002). Análise do comportamento: behaviorismo radical, análise experimental do comportamento e análise aplicada do comportamento. Interação em Psicologia, 6(1), p. 13-18.
Lopes, C. E. & Abib, J. A. D. (2003). O Behaviorismo Radical como Filosofia da Mente. Psicologia: Reflexão e Crítica, 16(1), pp. 85-94.
O'Donohue, W. & Kitchener, R. (1999). Handbook of behaviorism. Elsevier. USA. ISBN: 978-0-12-524190-8.
Tourinho, E. Z. (1999). Estudos conceituais na análise do
comportamento. Temas em Psicologia da SBP, 7(3), 213-222. -
Fazer apostas pode ser considerado um repertório comportamental generalizado e complexo. Apostar em uma rifa de caixa de bombons, apostar no jogo do bicho, apostar corrida com o colega do colégio, todos são exemplos cotidianos de modelagem do repertório de apostar. Nas apostas, em geral, as respostas são mantidas por esquema de reforçamento em razão variável (VR), que produz altas taxas do responder, e são mais resistentes à extinção do que respostas mantidas por esquema de reforçamento contínuo ou em razão fixa. Apostar geralmente é um repertório que corresponde às característas de respostas mantidas por VR e pode ser generalizável a qualquer contexto discriminativo correlacionado a ganhos, especialmente em dinheiro.
Entretanto, no caso específico de jogar na mega-sena, a maioria dos apostadores passa a vida jogando e nada recebe (logo, não há esquema de reforçamento) e alguns nunca tiveram a rotina de fazer outros tipos de apostas (portanto, não é, necessariamente, um repertório generalizado). Nesse caso, outras variáveis podem ser determinantes no estabelecimento do repertório de jogar na mega-sena.
Uma delas é a imitação, não entendida aqui como um comportamento inato de primatas, mas como um operante de ordem superior, com longa história de reforçamento. As pessoas estão diariamente expostas às mídias televisivas ou impressas ou online, logo têm acesso a informações sobre a vida pessoal de ganhadores da mega-sena, ficam sabendo como esses ganhadores melhoram de vida, adquirem muitos bens (que costumam funcionar como reforçadores para a maioria das pessoas) e os imitam. Afinal, vivemos em sociedade e temos um histórico altamente reforçado de que imitar pessoas bem sucedidas resulta em sucesso! Não é verdade que sempre resulta em sucesso, pois o sucesso não advém apenas da topografia, que é a parte da contingência do sucesso dos outros que imitamos. Jogar na mega-sena é um tipo de imitação que geralmente não leva ao mesmo sucesso de quem imitamos, mas ainda assim continuamos a imitar, pois imitar é reforçado socialmente.
A outra possível variável é o seguimento de regras. Qualquer pessoa pode ter um amigo, um parente, um vizinho, um colega de trabalho, um(a) namorado(a) que exerça controle verbal sobre o seu responder e diga-lhe para jogar na mega-sena porque essa é a única chance de ficar rico da noite para o dia.
Há ainda aqueles que não convivem com apostadores, não acompanham as notícias sobre apostadores e não têm amplo histórico de repertório de apostar, mas fazem uma "fézinha" quando há anúncio de que a mega-sena está acumulada em muitíssimos milhões. O que acontece? Ora, dinheiro funciona como reforçador generalizado, o valor reforçador é alto, a probabilidade de ganhar é pequena, mas o custo de resposta também o é. Uma contingência muito provável de produzir a resposta de apostar em qualquer pessoa que algum dia tenha recebido dinheiro por qualquer coisa que tenha feito. Operante discriminado puro e simples. Mas esse operante irá ser mantido? Isso dependerá das variáveis citadas anteriormente e dos esquemas aversivos concorrentes.
Obrigada por perguntar.
Att,
Rubilene
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Leituras recomendadas:
Para quem não tem intimidade com a terminologia da AC sobre esquemas de reforçamento
- Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed. Cap. 7
- Catania, A. C. (1999). Aprendizagem: comportamento,linguagem e cognição. Porto Alegre: Artmed.(Original em inglês publicado em 1998. Cap. 10
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Análise do Comportamento’s Bio
Mantido por Rubilene Borges e Hernando Neves Filho, ex-alunos do Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento da UFPa.
Você pode acompanhar as respostas e comentá-las também no http://baboseiras-epistemologicas.blogspot.com/

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