incinerrante

Você pensa que o conceito de "cinema pós-moderno" tem algum interesse interpretativo e analítico para a teoria do cinema? Que critérios você proporia para defini-lo? Que filmes escolheria como exemplos?

  • Bruno Cava

    Apostar no conceito de pós-moderno implica altos riscos. Exige laudas de explicações, para passar pelo "corredor polonês" de críticas e incompreensões. Esse debate vem desde os anos 1980, e desenvolveu-se de maneira diferente em cada campo do conhecimento. Na história da filosofia é uma coisa, na arquitetura outra, na literatura uma terceira. Na verdade "pós-moderno" é um personagem conceitual que atua em função do teatro conceitual em que insere.

    Daí que eu prefiro o termo "pós-industrial" a "pós-moderno". Ou então "pós-fordista". Nesse sentido, assumo a centralidade do trabalho, o modo de produção e a teoria do valor como determinantes, e não certo fetichismo pelas formas. No pós-industrial não é absurdo a Nigéria ser uma potência cinematográfica. Mudam os sistemas de produção, distribuição, circulação --- a técnica. Isso muda os valores implicados: menos obra, do que processo. Acredito que um dos primeiros grupos a fazer cinema além da lógica industrial --- em toda a sua economia e valores e problemas --- foi a nouvelle vague, no final dos anos 1950.

    Um cinema-vida, numa lógica imanente, numa imagem cuja técnica é o próprio conteúdo, porque indissociável. Uma mulher é só uma mulher, mas somente na medida em que essa mulher já nasce cinema, para a nouvelle vague. Essa guinada do modo de produção assume novas características da autoria, da relação com a vida, da conexão obra/movimento, da economia de afetos, do modo de enxergar e sentir. Eu colocaria o cinema-vida não-industrial, como a (primeira) nouvelle vague ou o cinema marginal (especialmente a Belair) ou mesmo o cinema transgressivo de NY da virada 1970-80, como um primeiro momento do pós-industrial.

    O segundo momento é o cinema digital: em todas as suas manifestações (inclusive celular, youtube etc), em toda a sua democracia midiática, um pós-industrial que chega ao povão e empodera-o. Nisso, impacta todo um modo de produzir e mesmo avaliar. Acho que Godard em Filme Socialismo tem algo a dizer algo a respeito. O cinema transversaliza-se e a autoria mais colaborativa. Está em jogo a criação partilhada de mundos, e sua livre difusão pelo comunismo de redes. Isto incide na essência-potência do filme, ao formalizar o conteúdo ou substanciar a forma.

    Por evidente, o pós-industrial não supera o industrial (não há aqui síntese). Eles coabitam, interagem, antagonizam, disputam. A própria indústria tenta capturá-lo, absorvê-lo, tirá-lo da circulação viva, da imanência, para botar preço e comercializar.

    O recente artigo de Cézar Migliorin à Cinética é fecundo: http://www.revistacinetica.com.br/cinemaposindustrial.htm . Outro que trabalha essa relação entre estética e modo de produção é entrevista de Gustavo Spolidoro à Revista Global Brasil, em http://issuu.com/globalbrasil/docs/global_07 ("Cinema para além do mercado", pág. 44).

    O que você acha, mestre?

  • Bruno Cava