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Gostaria de estar num concerto de Jimi Hendrix, ao som de "All along the watchtower", se possível.
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Todos os dias, de duas a oito horas, entre leituras e escritos.
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O socialismo real gerou um amálgama de perversões e subprodutos ideológicos. Ora isso significou faíscas incapazes de chamejar a história, ora infernos totalitários. Na URSS, exemplo mais proeminente do socialismo, viu-se um capitalismo de estado, um governo sem liberdade ou igualdade em que os cidadãos eram explorados por uma burocracia militarista e piramidal. Precisamos inventar formas de resistência ao capitalismo, mas que também desviem da tradição do socialismo real. O mundo hoje, no comunismo das redes, pode ser pós-capitalista e pós-socialista. Nesse sentido, há um caminho importante que vem sendo desbravado na constituição de um espaço global de compartilhamento (trabalho em redes, movimentos transnacionais, wikipedia, wikileaks, wordpress, copyleft etc), de um "comum" das relações sociais, de um mais-além da exploração e da expropriação implicadas tanto no estado quanto no mercado. Portanto, acredito em lutas concretas e devires minoritários que apontem para essa construção multitudinária de mundos.
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O capitalismo não pode ser vencido dentro de seus termos dialéticos. Não há crise do capitalismo a solucionar, o capitalismo é a crise. O antagonismo não visa à superação. As lutas se fazem na práticas, mas acredito ser possível articular, como saber precário, incompleto e imperfeito --- porém concreto --- uma combinação de estratégias e táticas. São elas: deserção/êxodo do sistema, constituição em diagonal de mundos, afirmação/produção de direitos, empoderamento da multidão por meio de redes, da rede de redes. Há vários momentos da memória militante em que o capitalismo foi impactado, tendo que se recodificar pra tentar voltar a capturar a vida. A revolução russa, independente de seu futuro tétrico, condicionou o século 20 e trouxe o sistema produtivo mundial a reboque. As lutas globais da década de 1960, nos seus múltiplos focos, na transversalidade da cultura como mundo (e não mundinho da cultura), como arte-conceito e militância mais rica, igualmente tiveram um estrondoso sucesso. A queda do muro em 1989 e toda a reconfiguração pós-fordista vêm como conseqüência dessas lutas cujo 1968 talvez tenha sido o emblema mais conhecido (embora na Alemanha, nos EUA e, nos anos 70, na Itália, houve potência de mesma ordem de grandeza). Todo esse movimento pós-capitalista eclodiu também na América do Sul dos anos 2000. E agora, 2011, a explosão multitudinária esteja pulsando no mundo árabe. Hoje, todos os países árabes são Tunísia, e muito em breve a Itália e Grécia podem ser Tunísia, o Irã ser Tunísia, o Brasil e o planeta todo tunisiano. O tema é vasto.
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Apostar no conceito de pós-moderno implica altos riscos. Exige laudas de explicações, para passar pelo "corredor polonês" de críticas e incompreensões. Esse debate vem desde os anos 1980, e desenvolveu-se de maneira diferente em cada campo do conhecimento. Na história da filosofia é uma coisa, na arquitetura outra, na literatura uma terceira. Na verdade "pós-moderno" é um personagem conceitual que atua em função do teatro conceitual em que insere.
Daí que eu prefiro o termo "pós-industrial" a "pós-moderno". Ou então "pós-fordista". Nesse sentido, assumo a centralidade do trabalho, o modo de produção e a teoria do valor como determinantes, e não certo fetichismo pelas formas. No pós-industrial não é absurdo a Nigéria ser uma potência cinematográfica. Mudam os sistemas de produção, distribuição, circulação --- a técnica. Isso muda os valores implicados: menos obra, do que processo. Acredito que um dos primeiros grupos a fazer cinema além da lógica industrial --- em toda a sua economia e valores e problemas --- foi a nouvelle vague, no final dos anos 1950.
Um cinema-vida, numa lógica imanente, numa imagem cuja técnica é o próprio conteúdo, porque indissociável. Uma mulher é só uma mulher, mas somente na medida em que essa mulher já nasce cinema, para a nouvelle vague. Essa guinada do modo de produção assume novas características da autoria, da relação com a vida, da conexão obra/movimento, da economia de afetos, do modo de enxergar e sentir. Eu colocaria o cinema-vida não-industrial, como a (primeira) nouvelle vague ou o cinema marginal (especialmente a Belair) ou mesmo o cinema transgressivo de NY da virada 1970-80, como um primeiro momento do pós-industrial.
O segundo momento é o cinema digital: em todas as suas manifestações (inclusive celular, youtube etc), em toda a sua democracia midiática, um pós-industrial que chega ao povão e empodera-o. Nisso, impacta todo um modo de produzir e mesmo avaliar. Acho que Godard em Filme Socialismo tem algo a dizer algo a respeito. O cinema transversaliza-se e a autoria mais colaborativa. Está em jogo a criação partilhada de mundos, e sua livre difusão pelo comunismo de redes. Isto incide na essência-potência do filme, ao formalizar o conteúdo ou substanciar a forma.
Por evidente, o pós-industrial não supera o industrial (não há aqui síntese). Eles coabitam, interagem, antagonizam, disputam. A própria indústria tenta capturá-lo, absorvê-lo, tirá-lo da circulação viva, da imanência, para botar preço e comercializar.
O recente artigo de Cézar Migliorin à Cinética é fecundo: http://www.revistacinetica.com.br/cinemaposindustrial.htm . Outro que trabalha essa relação entre estética e modo de produção é entrevista de Gustavo Spolidoro à Revista Global Brasil, em http://issuu.com/globalbrasil/docs/global_07 ("Cinema para além do mercado", pág. 44).
O que você acha, mestre? -
Tempo. Eu precisava de pelo menos 30 horas pra fazer o que quero a cada dia.
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Curto Oswald de Andrade e Beatles, dentre outros.
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Acompanho mais a política na Itália e França. A crise financeira não é causada por problemas intrínsecos ao capitalismo, mas por causa da resistência. A juventude desses países, desde as marchas altermundistas, quer um outro mundo, um em que não sejam obrigados a vender sua produtividade e criatividade por esmolas de um sistema altamente espoliatório. Essa pressão levou à crise, porque há uma recusa ao trabalho subordinado nos moldes tradicionais. Todavia, tais demandas pós-capitalistas não são acolhidas pela esquerda, que na Itália e na França pararam no tempo. Ou estão atolados em discursos neo-keynesianos, fordistas e de "regulação" (esquerda francesa), isto é, num viés reativo e inepto, ou então decaem num "consenso progressista" raso, de compromisso e apaziguado, que vem desde o pacto PCI-DC dos anos 1970 (esquerda italiana). Por isso, os movimentos sociais e redes militantes operam por fora dos esquemas da esquerda velha, pois esta faz a cama do capitalismo. Aí se podem ler as mobilizações dos "intermitentes do espetáculo", na França, e dos "precários" (em especial o último dezembro quente), na Itália. É preciso, portanto, reconstruir a organização política da esquerda dentro de um paradigma pós-trabalho, pós-industrial, pós-capitalista, e isso se faz mais imanentemente, na expressão da multidão, do que em partidos e sindicatos (esquerda velha). Como pedra angular de todo o debate, está a questão dos imigrantes. Sua chegada na Europa é um êxodo constituinte, quero dizer, eles estão resistindo à divisão internacional do trabalho. E põem em curto-circuito o sistema, porque tem uma força e uma produtividade que as esquerdas velhas não conseguem representar. O imigrante é também revolucionário, na sua multiplicação de universos de trabalho e produção, e não à toa haja tanta repressão. Quem sustenta os governos de direita de Sarkozy e Berlusconi não é só o europeu branco majoritário incluído, como reacionário à chegada de novos protagonistas, de um novo tempo, mas também a esquerda velha, que coaduna com esse capitalismo integrado porque não sai --- e nem lhe convém sair --- da lógica do salário, do trabalho industrial, da representação. Dentro dessa análise, só se pode concluir que a luta dos precários, imigrantes e agentes político-culturais tem tudo para se intensificar e esgarçar a crise que essa mesma luta produziu, constituindo uma alternativa potente ao "consenso autoritário" entre direita e esquerda velha.
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Graduação em engenharia de infraestrutura aeronáutica no ITA (1997-2001), pós-graduação em engenharia de pavimentos no ITA (2002), graduação em direito na UERJ (2004-08), mestrado em filosofia política do direito (ingresso em 2010).
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É cedo para analisar. Vejo ameaças claras no campo da cultura, absolutamente central na sociedade pós-industrial (capitalismo cognitivo). A ministra parece querer uma reviravolta na agenda dos direitos autorais e direito à cópia, e nas concepções de produtor não como "classe artística" mas condição e efeito da cidadania, cultura não como área acessória mas nuclear do sistema produtivo, cultura não como raízes e identidades mas redes abertas e diferença. A força do governo Lula foi derivar a política econômica da política social (e não o contrário, como na era FHC), fazer da difusão de renda o meio de realização da justiça social e não o inverso, uma vez que na democracia material meios e fins convergem. A capitulação também se dará se, na questão da democracia da mídia, não for integrado cultura, renda e educação, quero dizer, partir dos programas bolsa família, ptos de cultura e ptos de mídia (além da cultura digital e acesso universal à net), e daí construir a malha transversal e imanente de produção de cidadania/cultura/valor. O risco que se corre é, em vez disso, simplesmente criar uma imprensa estatal ou subordinada ao blocão de poder constituído, que também é o contrário do público. A democracia material passa em diagonal do estado e do mercado e nenhuma área é mais central nessa questão do que a mídia. Se o governo Dilma pretender aproveitar as "energias criativas" do Brasil, como dito em parte do discurso de posse (o "devir minoritário" daquele texto eminentemente nacionaldesenvolvimentista), deve portanto investir nas redes de cultura/mídia/educação/renda, em aprofundar o empoderamento do cidadão com elas, radicalizando inclusive o bolsa família em direção à renda univeral (muito além de assistencialismo ou mera "justiça social").
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A grande força do governo Lula, que produziu riqueza no mesmo processo em que a difundiu, deu-se graças à arte das ambiguidades, à capacidade de caminhar sobre a margem do possível, de se mover na constante tensão entre uma oligarquia centenária e o empoderamento da multidão, aliando compromissos e efetividade. Os entraves ao aprofundamento da mudança não se deram por falta de vontade política --- isso é efeito de superfície ---, mas por causa da esganiçada luta contra uma direita reacionária e racista, dona dos meios de comunicação, --- que vocaliza não só as oligarquias históricas, mas também a classemédia branca, diplomada, corporativa e autoindulgente, --- bem como devido às estruturas encarquilhadas da vida partidária brasileira e da militância mais "dura". Mesmo o PT, que é o mais completo e próximo de um partido no Brasil, carece de uma revolução para se adaptar às exigências do aprofundamento da mudança, aos problemas colocados pelo outro mundo desejado. O governo Dilma pode aprofundar a partir dessas ambigüidades, surfando nas forças imanentes ao processo constituinte disparado pelo governo anterior. Ou pode acabar refém do blocão constituído ao redor do poder, e aí acabará tendendo para o lado engessado e conservador do governo, mistura de esquerda velha e fisiologismo, isto é, para o "consenso progressista", e não para o devir revolucionário do evento-Lula e a constituição de uma multidão produtiva.
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Bruno Cava’s Bio
Escritor. Nascido na sensualidade praiana, atiçado no desejo dos livres, endurecido pelo riso das hienas, fez carreira no ódio e se formou na escola da revolta.

